Depois da campanha, a governação: Augusto Neves e António Duarte inauguram uma nova relação política em São Vicente

10/07/2026 22:52 - Modificado em 10/07/2026 22:52

O presidente da Câmara, eleito pelo MpD, recebeu o ministro do PAICV que derrotou nas autárquicas. O primeiro encontro deixa uma pergunta: conseguirá a política trabalhar onde a campanha dividiu?

Durante a campanha autárquica estiveram em lados opostos. Um venceu. O outro perdeu.Esta semana sentaram-se à mesma mesa.

O presidente da Câmara Municipal de São Vicente, Augusto Neves, recebeu o ministro da Cultura, Indústrias Criativas, Juventude e Desporto, António Duarte, naquele que foi muito mais do que uma visita institucional.

Foi o primeiro teste à relação entre duas legitimidades políticas diferentes.

De um lado, Augusto Neves, reeleito presidente da Câmara pelo MpD, depois de derrotar precisamente António Duarte, então candidato do PAICV à presidência do município em 2024

Do outro, António Duarte, que depois da derrota eleitoral regressa a São Vicente investido das funções de ministro de um Governo liderado pelo PAICV, vencedor das legislativas de 2026.

A democracia tem destas ironias. Os adversários de ontem tornam-se, muitas vezes, os parceiros institucionais de hoje.E é precisamente aqui que começa a parte interessante.

Uma relação nova… mas não totalmente desconhecida

Augusto Neves já governou São Vicente em diferentes contextos políticos.

Conheceu anos em que o Governo era liderado pelo PAICV, tendo José Maria Neves , como primeiro-ministro

Depois viveu uma década de alinhamento político com um Executivo do MpD, onde teve uma maioria absoluta em 2016

O discurso foi de convergência

Se alguém esperava sinais de tensão, não os encontrou.

Augusto Neves classificou o encontro como “excelente”.

Falou em sintonia. Falou na necessidade de acelerar projetos.

Falou de uma colaboração alargada nas áreas da cultura, do desporto e de outras infraestruturas estratégicas para a ilha.

Do lado do Governo, António Duarte respondeu na mesma linguagem.

Garantiu abertura total para trabalhar com o município. Reconheceu problemas antigos.

E assumiu disponibilidade para procurar soluções. Politicamente, era talvez a única mensagem possível. Porque ambos sabem que São Vicente julgará menos os discursos e muito mais os resultados. E muito mais se o atual Ministro não colocou de lado o seu projeto de ser eleito, um dia, Presidente da Câmara Municipal de São Vicente

O verdadeiro teste chama-se Adérito Sena

Foi também neste ponto que a realidade entrou na reunião.

O ministro reconheceu que será praticamente impossível concluir as obras do Estádio Adérito Sena a tempo da próxima competição.

Mais importante ainda. Admitiu que os financiamentos atualmente disponíveis, incluindo os provenientes da FIFA através da Federação Cabo-verdiana de Futebol, são insuficientes. É um reconhecimento que muda o debate. Durante muito tempo discutiu-se quando começariam as obras. Agora começa a discutir-se como financiá-las.

E talvez essa seja a primeira grande prova desta nova relação entre Governo e Câmara.

Porque o Adérito Sena deixou há muito de ser apenas um estádio. Transformou-se num símbolo da capacidade — ou incapacidade — do Estado responder às expectativas de São Vicente.

Carnaval, cultura e equipamentos

A reunião passou ainda pelo financiamento do Carnaval, pela recuperação dos equipamentos desportivos, pela Conservatória e pelo Mercado do Peixe.

Todos são dossiês antigos. Todos atravessaram diferentes governos.

Todos sobreviveram a sucessivas promessas. É precisamente por isso que este encontro desperta interesse. Não pelo que foi dito. Mas pelo que poderá acontecer a seguir.

O tempo da política deu lugar ao tempo da governação

Há poucos meses, Augusto Neves e António Duarte disputavam um projeto para São Vicente.

Hoje têm uma oportunidade diferente. Construí-lo em conjunto.

A campanha terminou. Os eleitores já escolheram. Agora ninguém perguntará quem venceu o debate. Perguntarão quem resolveu os problemas.

É essa a grande diferença entre a política e a governação.

Na política contam-se votos. Na governação contam-se resultados.

E talvez essa seja a melhor notícia que saiu deste primeiro encontro.

São Vicente pode finalmente beneficiar de uma relação institucional onde o adversário eleitoral de ontem e o governante de hoje compreendem que há uma vitória maior do que qualquer eleição: A vitória da ilha.

Eduino Santos

Comente a notícia

Obrigatório

Publicidades
© 2012 - 2026: Notícias do Norte | Todos os direitos reservados.