
O presidente da Câmara, eleito pelo MpD, recebeu o ministro do PAICV que derrotou nas autárquicas. O primeiro encontro deixa uma pergunta: conseguirá a política trabalhar onde a campanha dividiu?
Durante a campanha autárquica estiveram em lados opostos. Um venceu. O outro perdeu.Esta semana sentaram-se à mesma mesa.
O presidente da Câmara Municipal de São Vicente, Augusto Neves, recebeu o ministro da Cultura, Indústrias Criativas, Juventude e Desporto, António Duarte, naquele que foi muito mais do que uma visita institucional.
Foi o primeiro teste à relação entre duas legitimidades políticas diferentes.
De um lado, Augusto Neves, reeleito presidente da Câmara pelo MpD, depois de derrotar precisamente António Duarte, então candidato do PAICV à presidência do município em 2024
Do outro, António Duarte, que depois da derrota eleitoral regressa a São Vicente investido das funções de ministro de um Governo liderado pelo PAICV, vencedor das legislativas de 2026.
A democracia tem destas ironias. Os adversários de ontem tornam-se, muitas vezes, os parceiros institucionais de hoje.E é precisamente aqui que começa a parte interessante.
Uma relação nova… mas não totalmente desconhecida
Augusto Neves já governou São Vicente em diferentes contextos políticos.
Conheceu anos em que o Governo era liderado pelo PAICV, tendo José Maria Neves , como primeiro-ministro
Depois viveu uma década de alinhamento político com um Executivo do MpD, onde teve uma maioria absoluta em 2016
O discurso foi de convergência
Se alguém esperava sinais de tensão, não os encontrou.
Augusto Neves classificou o encontro como “excelente”.
Falou em sintonia. Falou na necessidade de acelerar projetos.
Falou de uma colaboração alargada nas áreas da cultura, do desporto e de outras infraestruturas estratégicas para a ilha.
Do lado do Governo, António Duarte respondeu na mesma linguagem.
Garantiu abertura total para trabalhar com o município. Reconheceu problemas antigos.
E assumiu disponibilidade para procurar soluções. Politicamente, era talvez a única mensagem possível. Porque ambos sabem que São Vicente julgará menos os discursos e muito mais os resultados. E muito mais se o atual Ministro não colocou de lado o seu projeto de ser eleito, um dia, Presidente da Câmara Municipal de São Vicente
O verdadeiro teste chama-se Adérito Sena
Foi também neste ponto que a realidade entrou na reunião.
O ministro reconheceu que será praticamente impossível concluir as obras do Estádio Adérito Sena a tempo da próxima competição.
Mais importante ainda. Admitiu que os financiamentos atualmente disponíveis, incluindo os provenientes da FIFA através da Federação Cabo-verdiana de Futebol, são insuficientes. É um reconhecimento que muda o debate. Durante muito tempo discutiu-se quando começariam as obras. Agora começa a discutir-se como financiá-las.
E talvez essa seja a primeira grande prova desta nova relação entre Governo e Câmara.
Porque o Adérito Sena deixou há muito de ser apenas um estádio. Transformou-se num símbolo da capacidade — ou incapacidade — do Estado responder às expectativas de São Vicente.
Carnaval, cultura e equipamentos
A reunião passou ainda pelo financiamento do Carnaval, pela recuperação dos equipamentos desportivos, pela Conservatória e pelo Mercado do Peixe.
Todos são dossiês antigos. Todos atravessaram diferentes governos.
Todos sobreviveram a sucessivas promessas. É precisamente por isso que este encontro desperta interesse. Não pelo que foi dito. Mas pelo que poderá acontecer a seguir.
O tempo da política deu lugar ao tempo da governação
Há poucos meses, Augusto Neves e António Duarte disputavam um projeto para São Vicente.
Hoje têm uma oportunidade diferente. Construí-lo em conjunto.
A campanha terminou. Os eleitores já escolheram. Agora ninguém perguntará quem venceu o debate. Perguntarão quem resolveu os problemas.
É essa a grande diferença entre a política e a governação.
Na política contam-se votos. Na governação contam-se resultados.
E talvez essa seja a melhor notícia que saiu deste primeiro encontro.
São Vicente pode finalmente beneficiar de uma relação institucional onde o adversário eleitoral de ontem e o governante de hoje compreendem que há uma vitória maior do que qualquer eleição: A vitória da ilha.
Eduino Santos