Editorial / Quando as instituições falam mais alto do que as pessoas

2/07/2026 17:47 - Modificado em 2/07/2026 17:47

A mensagem de Francisco Carvalho uniu os cabo-verdianos. As intervenções do Presidente da República abriram debates que nunca deviam ter existido.

Flag of Cabo Verde.

Há momentos em que um país precisa de protagonistas. E há momentos em que precisa apenas de instituições. O percurso extraordinário da Seleção Nacional no Mundial tem sido um desses raros momentos em que Cabo Verde descobriu que o verdadeiro protagonista não é um homem. Nem um governante. Nem um político : É uma equipa.

Foi precisamente isso que percebeu o Primeiro-Ministro Francisco Carvalho na mensagem que dirigiu aos Tubarões Azuis.

Não falou de si. Não tentou ocupar o centro da fotografia.

Não distribuiu conselhos táticos. Não sugeriu treinadores.

Não escolheu homenagens. Limitou-se a fazer aquilo que se espera de um chefe de Governo quando a Nação vive um momento de orgulho coletivo.

Agradeceu. Reconheceu. Unificou.

Colocou os jogadores, Bubista e a Federação Cabo-verdiana de Futebol no centro da narrativa.

É assim que as instituições funcionam. Cada uma conhece o seu lugar.

Cada uma respeita o espaço da outra. Infelizmente, não foi esse o padrão que vimos noutras intervenções institucionais.

Quando o Presidente da República afirmou que gostaria de ver Abel Ferreira a treinar a Seleção Nacional, abriu um debate que nunca deveria ter existido. Não porque Abel Ferreira não seja um grande treinador .É.

Mas porque escolher o selecionador nacional não faz parte das competências constitucionais do Presidente da República. Essa responsabilidade pertence à Federação Cabo-verdiana de Futebol. Ao pronunciar-se dessa forma, acabou por colocar, involuntariamente, Bubista numa posição desconfortável.

De um momento para o outro, o treinador que estava a escrever a página mais bonita da história do futebol cabo-verdiano passou a ser comparado com alguém que nem sequer fazia parte da competição.

Não era o tempo. Não era o lugar.Nem era o protagonista.

Poucos dias depois surgiu outra declaração. O Presidente anunciou que iria pedir aos responsáveis da Seleção que entregassem camisolas de Cabo Verde  a Lionel Messi, prestando assim uma homenagem. Mais uma vez, a intenção podia ser boa.

Mas a pergunta manteve-se.

Cabe ao Presidente da República decidir ou sugerir como a Federação deve gerir um gesto institucional da Seleção Nacional?

Também aqui a resposta parece evidente.

Não. Esse é um assunto da Federação .Da equipa. Do selecionador. Dos jogadores.

Mais recentemente surgiu a fotografia  onde o Presidente  veste uma  camisola onde o nome do país aparecia escrito em várias grafias.

Outra vez o debate desviou-se do essencial.

Quando o mundo finalmente aprende a chamar-nos simplesmente Cabo Verde, voltámos a discutir se devemos escrever Cape Verde, Cap Vert ou outras versões que o próprio Estado cabo-verdiano pediu às Nações Unidas para deixar de utilizar.

Mais uma vez, a comunicação gerou ruído. E o pior que pode acontecer à comunicação de um Presidente da República é precisamente isso.

Dividir quando deveria unir. Porque, a partir desse momento, os cabo-verdianos deixam de discutir a Seleção : passam a discutir o Presidente.

E quando isso acontece, o protagonista muda. Ora, este Mundial nunca pertenceu aos políticos. Pertence aos jogadores. A Bubista. À Federação.

Aos milhares de emigrantes que encheram estádios e ruas com a bandeira nacional.

Pertence ao povo cabo-verdiano.

A grande qualidade da mensagem de Francisco Carvalho foi precisamente essa.

Percebeu que o momento não era dele. Era do país.

Há uma enorme diferença entre liderar e querer aparecer. Os grandes líderes sabem quando falar. Os grandes líderes sabem, sobretudo, quando sair da frente para deixar que a História siga o seu caminho.

Porque há momentos em que o maior serviço que uma instituição pode prestar ao país é não competir pelo protagonismo. É respeitar quem o conquistou dentro das quatro linhas. No fundo, talvez esta seja a maior lição deste Mundial. Os protagonistas já foram  escolhidos :  Vestem de azul. Entram em campo.E respondem com os pés, não com os microfones.

Comente a notícia

Obrigatório

Publicidades
© 2012 - 2026: Notícias do Norte | Todos os direitos reservados.