A mensagem de Francisco Carvalho uniu os cabo-verdianos. As intervenções do Presidente da República abriram debates que nunca deviam ter existido.

Há momentos em que um país precisa de protagonistas. E há momentos em que precisa apenas de instituições. O percurso extraordinário da Seleção Nacional no Mundial tem sido um desses raros momentos em que Cabo Verde descobriu que o verdadeiro protagonista não é um homem. Nem um governante. Nem um político : É uma equipa.
Foi precisamente isso que percebeu o Primeiro-Ministro Francisco Carvalho na mensagem que dirigiu aos Tubarões Azuis.
Não falou de si. Não tentou ocupar o centro da fotografia.
Não distribuiu conselhos táticos. Não sugeriu treinadores.
Não escolheu homenagens. Limitou-se a fazer aquilo que se espera de um chefe de Governo quando a Nação vive um momento de orgulho coletivo.
Agradeceu. Reconheceu. Unificou.
Colocou os jogadores, Bubista e a Federação Cabo-verdiana de Futebol no centro da narrativa.
É assim que as instituições funcionam. Cada uma conhece o seu lugar.
Cada uma respeita o espaço da outra. Infelizmente, não foi esse o padrão que vimos noutras intervenções institucionais.
Quando o Presidente da República afirmou que gostaria de ver Abel Ferreira a treinar a Seleção Nacional, abriu um debate que nunca deveria ter existido. Não porque Abel Ferreira não seja um grande treinador .É.
Mas porque escolher o selecionador nacional não faz parte das competências constitucionais do Presidente da República. Essa responsabilidade pertence à Federação Cabo-verdiana de Futebol. Ao pronunciar-se dessa forma, acabou por colocar, involuntariamente, Bubista numa posição desconfortável.
De um momento para o outro, o treinador que estava a escrever a página mais bonita da história do futebol cabo-verdiano passou a ser comparado com alguém que nem sequer fazia parte da competição.
Não era o tempo. Não era o lugar.Nem era o protagonista.
Poucos dias depois surgiu outra declaração. O Presidente anunciou que iria pedir aos responsáveis da Seleção que entregassem camisolas de Cabo Verde a Lionel Messi, prestando assim uma homenagem. Mais uma vez, a intenção podia ser boa.
Mas a pergunta manteve-se.
Cabe ao Presidente da República decidir ou sugerir como a Federação deve gerir um gesto institucional da Seleção Nacional?
Também aqui a resposta parece evidente.
Não. Esse é um assunto da Federação .Da equipa. Do selecionador. Dos jogadores.
Mais recentemente surgiu a fotografia onde o Presidente veste uma camisola onde o nome do país aparecia escrito em várias grafias.
Outra vez o debate desviou-se do essencial.
Quando o mundo finalmente aprende a chamar-nos simplesmente Cabo Verde, voltámos a discutir se devemos escrever Cape Verde, Cap Vert ou outras versões que o próprio Estado cabo-verdiano pediu às Nações Unidas para deixar de utilizar.
Mais uma vez, a comunicação gerou ruído. E o pior que pode acontecer à comunicação de um Presidente da República é precisamente isso.
Dividir quando deveria unir. Porque, a partir desse momento, os cabo-verdianos deixam de discutir a Seleção : passam a discutir o Presidente.
E quando isso acontece, o protagonista muda. Ora, este Mundial nunca pertenceu aos políticos. Pertence aos jogadores. A Bubista. À Federação.
Aos milhares de emigrantes que encheram estádios e ruas com a bandeira nacional.
Pertence ao povo cabo-verdiano.
A grande qualidade da mensagem de Francisco Carvalho foi precisamente essa.
Percebeu que o momento não era dele. Era do país.
Há uma enorme diferença entre liderar e querer aparecer. Os grandes líderes sabem quando falar. Os grandes líderes sabem, sobretudo, quando sair da frente para deixar que a História siga o seu caminho.
Porque há momentos em que o maior serviço que uma instituição pode prestar ao país é não competir pelo protagonismo. É respeitar quem o conquistou dentro das quatro linhas. No fundo, talvez esta seja a maior lição deste Mundial. Os protagonistas já foram escolhidos : Vestem de azul. Entram em campo.E respondem com os pés, não com os microfones.