Para já, o pescador diz não saber se continuará a trabalhar com a embarcação ou se optará pela venda.E talvez seja compreensível.Porque depois de um barco desaparecer misteriosamente de Cabo Verde e reaparecer meses depois no Brasil, qualquer proprietário começa inevitavelmente a desconfiar que já não é exactamente ele quem decide o destino da embarcação.
Por: Eduíno Santos

Durante quase quatro meses, a embarcação de pesca de Leny Martins desapareceu sem deixar rasto. Nenhum sinal. Nenhuma explicação. Nenhuma resposta convincente.
Agora surgiu no Brasil. Sim, no Brasil.
E há qualquer coisa de profundamente cabo-verdiano nesta história: um barco desaparece discretamente da Ribeira da Barca, atravessa o Atlântico sem autorização diplomática e reaparece do outro lado do oceano quase como quem decidiu emigrar por conta própria.
O proprietário da embarcação, conhecido por Keita, confirmou esta semana que o barco foi localizado na passada sexta-feira, dia 22, no Brasil, encerrando parcialmente um dos episódios marítimos mais insólitos dos últimos meses em Cabo Verde.
Parcialmente, porque continua a faltar o essencial:como é que um barco desaparece fundeado em mar aparentemente calmo e vai parar ao outro lado do Atlântico?
Segundo relatou à Inforpress, a embarcação regressara da Boa Vista no dia 30 de Janeiro, depois de cerca de 20 dias de actividade de pesca sem grandes capturas — uma descrição que, aliás, resume boa parte da realidade actual da pesca artesanal cabo-verdiana: muito esforço, pouco peixe e demasiada incerteza.
O desembarque dos tripulantes aconteceu normalmente.
O barco ficou fundeado.O mar estava tranquilo.
Tudo parecia absolutamente normal.Normal até deixar de ser.
No sábado à noite, garantem testemunhas, a embarcação ainda permanecia no local. No domingo, desapareceu.
Assim.
Como quem sai discretamente sem deixar bilhete.
E é aqui que a história começa a entrar naquela zona cinzenta onde Cabo Verde produz algumas das suas narrativas mais improváveis.
O cabo da embarcação apareceu cortado. Mas até hoje ninguém sabe se foi intervenção humana, acidente marítimo ou simplesmente mais um daqueles mistérios atlânticos que acabam entregues à criatividade popular e às conversas de cais.
O mais impressionante talvez seja outro detalhe: o barco apareceu praticamente intacto.
Segundo Keita, as pessoas que encontraram a embarcação garantem que não existem danos significativos. O que significa que o Atlântico tratou o barco com mais cuidado do que muitas infraestruturas públicas cabo-verdianas recebem em terra firme.
A embarcação, avaliada em cerca de 11 mil contos, tinha sido fundeada há apenas um ano.Agora, o proprietário prepara-se para enfrentar uma nova aventura tipicamente nacional: recuperar o barco.
E aí começa provavelmente a parte mais complicada.
Porque em Cabo Verde desaparecer já é difícil. Recuperar administrativamente costuma ser ainda pior.
Keita deverá deslocar-se à cidade da Praia para contactos com instituições nacionais, na tentativa de obter apoio para o transporte da embarcação de volta ao país. O barco não poderá regressar pelos próprios meios e terá de ser transportado noutro navio.
Ou seja: depois de atravessar sozinho o Atlântico, o barco precisará agora da burocracia para regressar a casa.
A ironia praticamente escreve-se sozinha.
Para já, o pescador diz não saber se continuará a trabalhar com a embarcação ou se optará pela venda.
E talvez seja compreensível.
Porque depois de um barco desaparecer misteriosamente de Cabo Verde e reaparecer meses depois no Brasil, qualquer proprietário começa inevitavelmente a desconfiar que já não é exactamente ele quem decide o destino da embarcação.