Barco desapareceu em Ribeira da Barca… e apareceu no Brasil

25/05/2026 23:37 - Modificado em 25/05/2026 23:37

Em Cabo Verde até os barcos parecem emigrar sem avisar

Para já, o pescador diz não saber se continuará a trabalhar com a embarcação ou se optará pela venda.E talvez seja compreensível.Porque depois de um barco desaparecer misteriosamente de Cabo Verde e reaparecer meses depois no Brasil, qualquer proprietário começa inevitavelmente a desconfiar que já não é exactamente ele quem decide o destino da embarcação.

Por: Eduíno Santos

Screenshot

Durante quase quatro meses, a embarcação de pesca de Leny Martins desapareceu sem deixar rasto. Nenhum sinal. Nenhuma explicação. Nenhuma resposta convincente.

Agora surgiu no Brasil. Sim, no Brasil.

E há qualquer coisa de profundamente cabo-verdiano nesta história: um barco desaparece discretamente da Ribeira da Barca, atravessa o Atlântico sem autorização diplomática e reaparece do outro lado do oceano quase como quem decidiu emigrar por conta própria.

O proprietário da embarcação, conhecido por Keita, confirmou esta semana que o barco foi localizado na passada sexta-feira, dia 22, no Brasil, encerrando parcialmente um dos episódios marítimos mais insólitos dos últimos meses em Cabo Verde.

Parcialmente, porque continua a faltar o essencial:como é que um barco desaparece fundeado em mar aparentemente calmo e vai parar ao outro lado do Atlântico?

Segundo relatou à Inforpress, a embarcação regressara da Boa Vista no dia 30 de Janeiro, depois de cerca de 20 dias de actividade de pesca sem grandes capturas — uma descrição que, aliás, resume boa parte da realidade actual da pesca artesanal cabo-verdiana: muito esforço, pouco peixe e demasiada incerteza.

O desembarque dos tripulantes aconteceu normalmente.
O barco ficou fundeado.O mar estava tranquilo.

Tudo parecia absolutamente normal.Normal até deixar de ser.

No sábado à noite, garantem testemunhas, a embarcação ainda permanecia no local. No domingo, desapareceu.

Assim.
Como quem sai discretamente sem deixar bilhete.

E é aqui que a história começa a entrar naquela zona cinzenta onde Cabo Verde produz algumas das suas narrativas mais improváveis.

O cabo da embarcação apareceu cortado. Mas até hoje ninguém sabe se foi intervenção humana, acidente marítimo ou simplesmente mais um daqueles mistérios atlânticos que acabam entregues à criatividade popular e às conversas de cais.

O mais impressionante talvez seja outro detalhe: o barco apareceu praticamente intacto.

Segundo Keita, as pessoas que encontraram a embarcação garantem que não existem danos significativos. O que significa que o Atlântico tratou o barco com mais cuidado do que muitas infraestruturas públicas cabo-verdianas recebem em terra firme.

A embarcação, avaliada em cerca de 11 mil contos, tinha sido fundeada há apenas um ano.Agora, o proprietário prepara-se para enfrentar uma nova aventura tipicamente nacional: recuperar o barco.

E aí começa provavelmente a parte mais complicada.

Porque em Cabo Verde desaparecer já é difícil. Recuperar administrativamente costuma ser ainda pior.

Keita deverá deslocar-se à cidade da Praia para contactos com instituições nacionais, na tentativa de obter apoio para o transporte da embarcação de volta ao país. O barco não poderá regressar pelos próprios meios e terá de ser transportado noutro navio.

Ou seja: depois de atravessar sozinho o Atlântico, o barco precisará agora da burocracia para regressar a casa.

A ironia praticamente escreve-se sozinha.

Para já, o pescador diz não saber se continuará a trabalhar com a embarcação ou se optará pela venda.

E talvez seja compreensível.

Porque depois de um barco desaparecer misteriosamente de Cabo Verde e reaparecer meses depois no Brasil, qualquer proprietário começa inevitavelmente a desconfiar que já não é exactamente ele quem decide o destino da embarcação.

Comente a notícia

Obrigatório

Publicidades
© 2012 - 2026: Notícias do Norte | Todos os direitos reservados.