BALANÇO | A campanha das promessas sem preço… e o grande silêncio sobre o dia seguinte

15/05/2026 11:41 - Modificado em 15/05/2026 11:41

A campanha eleitoral cabo-verdiana termina deixando uma sensação curiosa: falou-se muito do paraíso… e quase nada da fatura.

Prometeu-se: Universidade gratuita, transportes quase de graça, aumentos salariais, pensões reforçadas, Estado social musculado, subsídios, habitação, apoios para tudo e mais alguma coisa.

Durante semanas, Cabo Verde pareceu viver naquele momento raro em que todos os partidos descobriram simultaneamente petróleo no quintal do Tesouro.

O problema é que o Banco de Cabo Verde apareceu discretamente a lembrar uma realidade menos poética: a economia continua a crescer, sim senhor… mas já começou a perder fôlego.

E talvez aí esteja o grande vazio desta campanha: quase ninguém quis discutir seriamente o dia seguinte.

Porque depois dos comícios, dos vídeos emocionais, dos drones, dos slogans e das lives no Facebook, o país continuará:

Dpendente do turismo, vulnerável ao exterior,
com dívida elevada, inflação pressionada, crescimento a desacelerar, e margem orçamental limitada.

No fundo, todos sabem uma coisa que quase ninguém teve coragem de dizer claramente: Cabo Verde não tem recursos para virar a Noruega de África apenas por decisão eleitoral.

Mas discutir isso em campanha era politicamente perigoso.

Então preferiu-se fugir do debate sério sobre:

financiamento,
sustentabilidade,
prioridades,
limites,
sacrifícios,
e escolhas difíceis.

A política entrou quase numa competição de fantasia orçamental onde prometer prudência parecia menos popular do que prometer milagres.

E assim chegamos à grande pergunta que ficou praticamente sem resposta nestas eleições: como será o dia seguinte a 17 de Maio?

Porque no dia seguinte:

o Orçamento continuará limitado, os parceiros internacionais continuarão a exigir prudência, a dívida continuará ali, os transportes continuarão caros, e a matemática continuará menos emocional do que os discursos de campanha.

Talvez essa seja a maior ironia destas legislativas: nunca se prometeu tanto…e raramente se explicou tão pouco sobre como transformar promessas em realidade.

Eduino Santos

Comente a notícia

Obrigatório

Publicidades
© 2012 - 2026: Notícias do Norte | Todos os direitos reservados.