
A campanha eleitoral cabo-verdiana termina deixando uma sensação curiosa: falou-se muito do paraíso… e quase nada da fatura.
Prometeu-se: Universidade gratuita, transportes quase de graça, aumentos salariais, pensões reforçadas, Estado social musculado, subsídios, habitação, apoios para tudo e mais alguma coisa.
Durante semanas, Cabo Verde pareceu viver naquele momento raro em que todos os partidos descobriram simultaneamente petróleo no quintal do Tesouro.
O problema é que o Banco de Cabo Verde apareceu discretamente a lembrar uma realidade menos poética: a economia continua a crescer, sim senhor… mas já começou a perder fôlego.
E talvez aí esteja o grande vazio desta campanha: quase ninguém quis discutir seriamente o dia seguinte.
Porque depois dos comícios, dos vídeos emocionais, dos drones, dos slogans e das lives no Facebook, o país continuará:
Dpendente do turismo, vulnerável ao exterior,
com dívida elevada, inflação pressionada, crescimento a desacelerar, e margem orçamental limitada.
No fundo, todos sabem uma coisa que quase ninguém teve coragem de dizer claramente: Cabo Verde não tem recursos para virar a Noruega de África apenas por decisão eleitoral.
Mas discutir isso em campanha era politicamente perigoso.
Então preferiu-se fugir do debate sério sobre:
financiamento,
sustentabilidade,
prioridades,
limites,
sacrifícios,
e escolhas difíceis.
A política entrou quase numa competição de fantasia orçamental onde prometer prudência parecia menos popular do que prometer milagres.
E assim chegamos à grande pergunta que ficou praticamente sem resposta nestas eleições: como será o dia seguinte a 17 de Maio?
Porque no dia seguinte:
o Orçamento continuará limitado, os parceiros internacionais continuarão a exigir prudência, a dívida continuará ali, os transportes continuarão caros, e a matemática continuará menos emocional do que os discursos de campanha.
Talvez essa seja a maior ironia destas legislativas: nunca se prometeu tanto…e raramente se explicou tão pouco sobre como transformar promessas em realidade.
Eduino Santos