
Há nomes que não precisam de apresentação — bastam as histórias que ficam. E em São Vicente, falar de nascimentos durante décadas foi, muitas vezes, falar de Pedro Carlos José do Rosário.
O **Dr. Rosário** partiu esta terça-feira, aos 92 anos, deixando atrás de si um rasto feito de primeiros choros, mãos firmes e decisões que, entre a urgência e o cuidado, ajudaram a escrever milhares de começos.
*O médico que acompanhou gerações**
Natural de São Filipe, na ilha do Fogo, onde nasceu a 2 de setembro de 1933, fez de São Vicente a sua casa profissional — e humana.
Durante largos anos, foi uma das referências incontornáveis do Hospital Dr. Baptista de Sousa, onde construiu uma reputação feita de rigor, exigência e um compromisso quase silencioso com a vida.
Não era médico de palavras fáceis. Era médico de presença.
Daqueles que entram na sala… e tudo se alinha.
O seu nome ficou ligado ao desenvolvimento do planeamento materno-infantil no Mindelo, numa altura em que falar de saúde reprodutiva era também abrir caminho onde quase não havia estrada.
Antes do bisturi, a bola
Mas antes das salas clínicas, houve relvados — ou o que deles existia na altura.
Na década de 50, o jovem Rosário cruzou-se com nomes como Sílvio Torres, Eurico Brito, José Manuel Morbey e António Cohen, numa geração em que o futebol era mais do que jogo — era encontro, identidade, pertença.
*Um nome que fica nas histórias que não se escrevem**
Há médicos que passam pelos hospitais.
E há médicos que ficam nas famílias.
O Dr. Rosário é desses.
Fica nas memórias de mães, nos relatos de avós, nas conversas onde alguém diz:
“foi ele que me trouxe ao mundo”.
E isso — em qualquer geografia — é uma forma rara de eternidade.
**Última despedida**
O corpo estará esta quarta-feira, 6 de maio, numa agência funerária em São Vicente, com o funeral marcado para as 16 horas.
À família — esposa, filhas, neta — e a todos quantos cruzaram o seu caminho, fica um país em silêncio respeitoso.
Porque quando parte quem ajudou a nascer tantos,
não é só uma vida que se despede.
É uma história inteira que se inclina.
**Que a terra lhe seja leve.**
Eduino Santos