Em apenas cinco horas, a ilha de São Vicente recebeu quase dois terços da chuva média anual. A ausência de aviso atempado agravou o impacto da tragédia.

São Vicente viveu, no dia 11 de agosto, um dos episódios de precipitação mais intensos de que há registo no arquipélago, com consequências devastadoras para a população. As ruas transformaram-se em rios violentos, arrastando carros, destruindo casas e deixando um rasto de lama, destroços e desespero. Pelo menos uma pessoa morreu dentro de um carro arrastado pelas enxurradas
Apesar da dimensão da tempestade, não foi emitido nenhum alerta pelo Instituto Nacional de Meteorologia e Geofísica (INMG). A grande maioria das pessoas nas zonas foram apanhadas de surpresa, sem tempo para se proteger ou salvar bens. Isto, num domingo de muito calor em que as pessoas tinham passado o dia na praia e no centro da cidade as festas já estavam no embalo para o Festival da Baía das Gatas.
Especialistas e cidadãos sublinham que, embora não fosse possível evitar todos os danos, um aviso prévio poderia ter salvado vidas e reduzido o impacto da tragédia. Ou, pelo menos despertar as pessoas que “algo” poderia acontecer. Não será exagero que a grande maioria não tinha conhecimento da previsão de “chuvas severas”.
E são as próprias autoridades, incluindo o Ministro da Administração Interna, que vieram dizer que “embora houvesse previsão de chuva e trovoada, não foi emitido alerta, uma vez que “o sistema inicialmente parecia menos perigoso”.
Segundo a responsável do IMNG, a previsão baseou-se em imagens de satélite, já que Cabo Verde não dispõe de radares meteorológicos, o que “dificulta estimar a intensidade e quantidade de precipitação com precisão”. Hoje basta consultar os sites e apps de meteorologia para ficar claro que logo no inicio da tempestade já havia motivos para no mínimo emitir o Alerta Amarelo.
E esses sites indicavam que o pico da tempestade seria entre as 2 horas e as 3 da manhã. E nesse período teria se justificado a emissão do Alerta Vermelho. Da parte das autoridades, em particular do Serviço Nacional da Proteção Civil, silêncio enquanto as enxurradas levavam pessoas pelas ribeiras e a tempestade arrasava a ilha de São Vicente .
Histórias que marcam
Entre os relatos mais dolorosos, há o de uma mãe que acordou no meio da tempestade para pedir ajuda e foi encontrar os filhos mortos. Duas mulheres perderam a vida dentro de um carro, que foi arrastado pela força das águas.
Um pai viu o filho e a mãe serem levados pela corrente, numa luta desesperada em que tentava manter-se agarrado a um pedaço de madeira. Comerciantes e famílias perderam em minutos o trabalho de uma vida, sem oportunidade de proteger mercadorias ou documentos.
As ruas, horas depois da chuva, ofereciam um cenário desolador: veículos empilhados como peças de brinquedo, paredes caídas, lama a cobrir passeios, móveis e eletrodomésticos espalhados. Em bairros mais vulneráveis, famílias procuravam, com as mãos, entre escombros e água turva, restos do que ainda poderia ser recuperado.
Críticas à resposta institucional
O comunicado emitido pelo INMG após o desastre foi considerado “frio” e “desajustado” por várias vozes da sociedade civil, que pedem que a instituição assuma a falha e reveja os seus procedimentos. A instituição saí deste drama com a credibilidade arrasada, isto quando amadores conseguiram fazer a previsão do que ia acontecer com recursos a aplicações e sites.
“O que se espera não é prever ao milímetro a quantidade de chuva, mas alertar imediatamente sempre que exista risco de tempestade perigosa, mesmo com margens de incerteza”, afirmam críticos da atuação do instituto.
O contraste tornou-se ainda mais evidente quando um cidadão, recorrendo apenas a um telemóvel e ao site “Windy”, conseguiu prever a possibilidade de forte precipitação antes do evento.
A tragédia deixou feridas profundas, não apenas pelo número de vítimas e prejuízos materiais, mas pela perceção de que vidas poderiam ter sido poupadas. Organizações e cidadãos pedem agora a criação ou reforço de sistemas de alerta e prevenção, capazes de dar resposta rápida e eficaz a fenómenos meteorológicos extremos, que tendem a tornar-se mais frequentes com as alterações climáticas.
A questão que se coloca, segundo vários moradores, é se este episódio ficará apenas como mais uma tragédia na história da ilha ou se será o ponto de viragem para mudanças estruturais que garantam mais segurança e preparação no futuro.
NN