Tragédia em São Vicente: Foi mais do que um evento meteorológico extremo foi também um falhanço institucional  

14/08/2025 23:36 - Modificado em 14/08/2025 23:36

Em apenas cinco horas, a ilha de São Vicente recebeu quase dois terços da chuva média anual. A ausência de aviso atempado agravou o impacto da tragédia.

São Vicente, terceiro dia após as chuvas

São Vicente viveu, no dia 11 de agosto, um dos episódios de precipitação mais intensos de que há registo no arquipélago, com consequências devastadoras para a população. As ruas transformaram-se em rios violentos, arrastando carros, destruindo casas e deixando um rasto de lama, destroços e desespero. Pelo menos uma pessoa morreu dentro de um carro arrastado pelas enxurradas

Apesar da dimensão da tempestade, não foi emitido nenhum  alerta pelo Instituto Nacional de Meteorologia e Geofísica (INMG). A grande maioria das pessoas nas zonas foram apanhadas de surpresa, sem tempo para se proteger ou salvar bens. Isto, num domingo de muito calor  em que as pessoas tinham passado o dia na praia e no centro da cidade as festas já estavam no embalo para o Festival da Baía das Gatas. 

Especialistas e cidadãos sublinham que, embora não fosse possível evitar todos os danos, um aviso prévio poderia ter salvado vidas e reduzido o impacto da tragédia. Ou, pelo menos despertar as pessoas que “algo” poderia acontecer. Não será exagero que a grande maioria não tinha conhecimento da previsão de “chuvas severas”.

E são as próprias autoridades, incluindo o Ministro da Administração Interna, que vieram dizer que “embora houvesse previsão de chuva e trovoada, não foi emitido alerta, uma vez que “o sistema inicialmente parecia menos perigoso”.

Segundo a responsável do IMNG, a previsão baseou-se em imagens de satélite, já que Cabo Verde não dispõe de radares meteorológicos, o que “dificulta estimar a intensidade e quantidade de precipitação com precisão”. Hoje basta consultar os sites e apps de meteorologia para ficar claro que logo no inicio da tempestade já havia motivos para no mínimo emitir o Alerta Amarelo.

E esses sites indicavam que o pico da tempestade seria entre as 2 horas e as 3 da manhã. E nesse período teria se justificado a emissão do Alerta Vermelho. Da parte das autoridades, em particular do Serviço Nacional da Proteção Civil,  silêncio  enquanto as enxurradas levavam pessoas pelas ribeiras e a tempestade arrasava a ilha de São Vicente .

Histórias que marcam

Entre os relatos mais dolorosos, há o de uma mãe que acordou no meio da tempestade para pedir ajuda e foi encontrar os filhos mortos. Duas mulheres perderam a vida dentro de um carro, que foi arrastado pela força das águas. 

Um pai viu o filho e a mãe serem levados pela corrente, numa luta desesperada em que tentava manter-se agarrado a um pedaço de madeira. Comerciantes e famílias perderam em minutos o trabalho de uma vida, sem oportunidade de proteger mercadorias ou documentos.

As ruas, horas depois da chuva, ofereciam um cenário desolador: veículos empilhados como peças de brinquedo, paredes caídas, lama a cobrir passeios, móveis e eletrodomésticos espalhados. Em bairros mais vulneráveis, famílias procuravam, com as mãos, entre escombros e água turva, restos do que ainda poderia ser recuperado.

Críticas à resposta institucional

O comunicado emitido pelo INMG após o desastre foi considerado “frio” e “desajustado” por várias vozes da sociedade civil, que pedem que a instituição assuma a falha e reveja os seus procedimentos. A instituição saí deste drama com a credibilidade arrasada, isto quando amadores conseguiram fazer a previsão do que ia acontecer com recursos a aplicações e sites.

“O que se espera não é prever ao milímetro a quantidade de chuva, mas alertar imediatamente sempre que exista risco de tempestade perigosa, mesmo com margens de incerteza”, afirmam críticos da atuação do instituto.

O contraste tornou-se ainda mais evidente quando um cidadão, recorrendo apenas a um telemóvel e ao site “Windy”, conseguiu prever a possibilidade de forte precipitação antes do evento.

A tragédia deixou feridas profundas, não apenas pelo número de vítimas e prejuízos materiais, mas pela perceção de que vidas poderiam ter sido poupadas. Organizações e cidadãos pedem agora a criação ou reforço de sistemas de alerta e prevenção, capazes de dar resposta rápida e eficaz a fenómenos meteorológicos extremos, que tendem a tornar-se mais frequentes com as alterações climáticas.

A questão que se coloca, segundo vários moradores, é se este episódio ficará apenas como mais uma tragédia na história da ilha ou se será o ponto de viragem para mudanças estruturais que garantam mais segurança e preparação no futuro.

NN

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