
Este debate tinha sido lançado em 2016, com o ataque do soldado Antany, António Silva Ribeiro, em abril de 2016, que matou 11 pessoas no destacamento militar em Monte Txota, alegadamente devido aos abusos sofridos na instituição castrense.
E voltou à tona, com mais força, recentemente com a morte de 8 militares após o acidente de viação de 2 de Abril 2023, na sequência do incêndio no parque Natural de Serra da Malagueta, na ilha de Santiago.
Na altura a sociedade civil mostrou a sua indignação sobre a forma como os militares são tratados durante o serviço militar. E sem deixar de fora, o caso dos vídeos de maio de 2021, que mostram recrutas sendo humilhados por superiores, durante o serviço.
Nos vídeos os militares são colocados contra a parede e obrigados a simular atos sexuais e agressão com um cabo de uma vassoura a ser introduzido no ânus, por cima da rua, causando desespero ao militar.
Um caso que suscitou debates nas redes sociais, e na praça pública, mas que até então, o suposto inquérito sobre o caso nunca veio à público.
E passados meses sobre o acidente que ceifou a vida dos militares, chegou na sexta-feira, 13 de outubro, a noticia, avançada pelas Forças Armadas da morte de um recruta de 20 anos natural da ilha do Fogo, que segundo comunicado, faleceu no Hospital Batista de Sousa, em São Vicente, após indisposição na etapa final de uma marcha administrativa, no Centro de Instrução Militar do Morro Branco (CIMMB).
Ora o caso veio ganhando contorno nas redes sociais, após o surgimento de novas versões sobre o caso de supostos recrutas, que afirmam que a versão apresentada pelas FACV é falsa e que houve abusos que culminaram no desfecho, algo que tem causado ondas de indignação nas redes sociais e sociedade civil, tem levantado várias questões sobre os alegados abusos que os militares.
E a ser verdade, a população pede que sejam apuradas responsabilidades e que seja feita de forma transparente.
E com isso está lançado nas redes sociais, o debate sobre a abolição do serviço militar obrigatório.
Para um internauta, “Se não acabar esses tipos de abusos nas Forças Armadas não tenho dúvida que algum dia vai surgir novos Antani”, refere relembrando o caso do soldado conhecido pelo autor da Chacina de Monte Txota.
Para ele, os responsáveis por estes actos devem ser punidos severamente para não repetir a barbaridade que aconteceu há alguns anos atrás, onde vários familiares choraram pelas perdas de familiares queridos. “Tem de haver responsáveis para serem exemplarmente punidos pela tamanha desumanidade”, condena.
Outros seguem na mesma linha, alegando que se não tomaram medidas, pode haver
outro massacre em Cabo Verde e que esta é a hora de entrar em pauta a tal discussão do confesso autor do massacre em Monte tchota, pelo qual ele alegava ter sido vítima do sistema.
Para um militar que prestou serviço neste quartel, que optou pelo anonimato, afirma que nunca assistiu a nenhum acto deste tipo, quando foi recruta, há 20 anos, embora
reconheça que se isso for verdade, apesar dos vídeos mostrarem com clareza “é, de
repudiar tal ato que haja uma investigação do fundo para apurar os responsáveis e punir” sublinha este militar na reserva que diz ainda que nestas condições, “eu não enviarei meu filho para tropa”.
“Esse problema de abuso de poder nas Forças Armadas de Cabo Verde é um mal crônico e não é de agora, já passaram tantos presidentes da república e o mal sempre prevaleceu, vamos ficar assistindo esse abuso dos tais generais ou superiores nas forças armadas de Cabo Verde ou será preciso aparecer outro “Antany” para varrer com esses demônios apoderados das forças armadas de Cabo Verde”, realçou outro internauta indignado.
Outro militar, por seu turno, discorda, alegando que desde sempre existiu relatos de
maus tratos, tratamento abusivo, atos cruéis, humilhações nas Forças Armadas do país. “Quando lá estive eu vi a forma como humilham os soldados, como vingam em recrutas algo que tenha sucedido com algum familiar dele anterior, como batem tão facilmente sem motivos.
“São tantos abusos que presenciei acontecer com colegas, que se viessem ao público muitos dos superiores iriam presos”, escreveu outro.
Afirmam que é lamentável o que se vive dentro das forças armadas, há que haver um controlo para com essa gente. “Muitos crimes podem acontecer derivados de acontecimentos que lá dentro sucedem”.
“Nós precisamos de militares qualificados, militares que possam contribuir para a natureza das missões reais das Forças Armadas, que exigem esse tipo de tecnicidade, e é aí que temos de trabalhar”, referiu outro internauta que se mostra contra o serviço militar obrigatório.
De relembrar que em abril, após a morte dos 8 militares na ilha de Santiago, o primeiro-ministro , Ulisses Correia e Silva e o Presidente da Republica José Maria Neves, avançaram que não era o memento certo para se fazer o debate sobre abolição do serviço militar obrigatório em Cabo Verde.