«Noca, meu amor» enche o Grémio Literário de Lisboa entre lágrimas e abraços

7/11/2026 19:29 - Modificado em 7/11/2026 19:29

Eduino Santos abriu a apresentação do romance em Lisboa mostrando a sua certidão de nascimento. Na linha reservada ao avô materno faltava um nome. Na sala estavam os descendentes de Noca e Joaquim, do ramo cabo-verdiano e os de Joaquim do ramo português da família

Antes de falar do livro, Eduino Santos leu os nomes dos avós paternos e o da avó materna, Leopoldina Júlia dos Santos, a Noca que dá título ao romance. Ao chegar ao lugar reservado ao avô materno, fez uma pausa. Ali havia uma linha vazia.

«Mas aquela linha vazia teve descendentes», disse. E, entre soluços, lágrimas , apresentou à sala netos, bisnetos e trinetos de Noca e Joaquim. Depois, colocou sobre a linha da certidão o nome que ali faltava e leu-o pausadamente. Joaquim Manuel Mendes de Vasconcelos Guimarães.

Foi assim que começou a apresentação de Noca, meu amor, na sexta-feira, 6 de novembro, num Grémio Literário repleto de familiares e amigos. No Mindelo, o autor tinha apresentado o romance na terra onde a história começou. Em Lisboa, tinha diante de si os dois ramos da família, o cabo-verdiano e o português.

Ao falar de Helena, sua neta e trineta de Noca e Joaquim , Eduino Santos recordou uma frase do romance — «O sangue pode viajar, mas não desaparece» — e acrescentou:

Às vezes, reaparece nos olhos azuis de uma trineta, como se neles se encontrassem o azul do Tejo ou do Tâmega e o azul da Baía do Porto Grande.

Em Helena, as duas genealogias já não se encontram apenas nos documentos, na memória ou nas páginas de um romance. Encontram-se numa criança. São vida e futuro.

Quase cem anos depois de Noca e Joaquim se conhecerem no Mindelo, Helena estava ali, no Grémio Literário, testemunho vivo daquele encontro.

Da relação entre Noca e Joaquim nasceu Gabriela, mãe do autor, registada como filha de pai incógnito. Décadas mais tarde, no Instituto Português de Oncologia, em Lisboa, Joaquim Manuel apresentou-a ao filho Joaquim José, filhos e filhas deste estavam na plateia , «Esta é a tua irmã», disse-lhe. Joaquim José avançou e estendeu-lhe a mão. Ao recordar esse gesto, Eduino Santos deu um sentido concreto à ideia de reconhecimento que atravessa o livro.

Noca e Joaquim Manuel conservam no romance os seus nomes verdadeiros. Gabriela inspira Djodja, enquanto Naise reúne experiências de várias vidas, entre elas a do próprio autor. A história familiar cruza-se com a de uma geração cabo-verdiana marcada pela emigração e pela guerra. Naise parte para o mar, Caluca combate em Guileje e Nhela fica no Mindelo, guardando as cartas e a memória dos amigos.

A escrita levou Eduino Santos a rever o juízo que durante anos fizera do avô, um homem que nunca chegou a conhecer. Na apresentação, resumiu o que essa mudança significou para si. «Perdoar é recusar que a ferida continue a decidir o nosso futuro.»

Houve lágrimas na sala. Ao terminar, o autor voltou à avó. «Noca chegou a Lisboa. E encontrou a sua família.» Depois vieram os abraços.

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