
Polícias, guardas prisionais e o presidente do Conselho de Administração do Hospital Agostinho Neto estão entre os 20 novos detidos numa investigação sobre tráfico de droga e branqueamento de capitais. A operação, iniciada publicamente em Julho, levanta agora questões sobre a eventual ligação de redes criminosas a sectores sensíveis da Administração Pública.
Notícias do Norte | 4 de Novembro de 2026
A Operação “Shark”, desencadeada pela Polícia Judiciária (PJ) em Julho passado, conheceu esta terça-feira, 3 de Novembro, uma nova fase que resultou na detenção de mais 20 pessoas na cidade da Praia, elevando para 32 o número de indivíduos detidos nas duas fases da investigação.
Mas, desta vez, não é apenas a dimensão da alegada rede de tráfico de droga que chama a atenção. É também a presença, entre os suspeitos, de elementos das forças de segurança, guardas prisionais e um alto responsável da Administração Pública.
Segundo a Polícia Judiciária, entre os detidos encontram-se quatro agentes da Polícia Nacional, cinco guardas prisionais e um alto dirigente público.
A agência Lusa, citando uma fonte da PJ, identificou esse dirigente como o médico Odair Carvalho, presidente do Conselho de Administração do Hospital Universitário Agostinho Neto (HUAN), na cidade da Praia.
Carvalho tinha sido nomeado para dirigir o maior hospital do país por despacho governamental publicado a 7 de Setembro, tendo o novo Conselho de Administração tomado posse a 18 de Setembro.
A detenção do responsável hospitalar, contudo, não significa que o hospital esteja envolvido nos factos investigados, nem permite concluir que os alegados crimes estejam relacionados com o exercício das suas actuais funções.
Uma rede investigada há vários anos
A Operação “Shark” tornou-se pública a 16 de Julho de 2026, quando a Polícia Judiciária realizou buscas em vários bairros da cidade da Praia, incluindo Fazenda, Palmarejo, Craveiro Lopes e Plateau.
Na primeira fase foram detidos 12 indivíduos suspeitos de integrarem uma estrutura criminosa que, de acordo com as investigações, actuaria há cerca de 15 anos, com ligações nacionais e internacionais.
Segundo informações divulgadas pela Rádio de Cabo Verde, a investigação policial decorre há mais de três anos.
No centro das suspeitas está o empresário praiense Emanuel dos Santos, conhecido por “Neneya”, apontado por fontes jornalísticas como alegado líder da rede e detido em Julho.
Naquela operação, a PJ apreendeu mais de 1,16 quilogramas de cocaína, cerca de dois milhões de escudos cabo-verdianos, 770 euros, 25 viaturas, quatro motociclos, uma mota de água, objectos de ouro e prata, armas e munições.
Dos 12 detidos em Julho, sete ficaram sujeitos a prisão preventiva, enquanto aos restantes foram aplicadas medidas de coacção menos gravosas.
Nova operação envolve agentes do Estado
A segunda fase, realizada na manhã de terça-feira, 3 de Novembro, foi conduzida pela Direcção Central de Investigação Criminal, através da Secção Central de Investigação do Tráfico de Estupefacientes e Criminalidade Organizada.
Os 20 detidos, 17 homens e três mulheres, com idades entre os 20 e os 60 anos, estão indiciados pela prática, em co-autoria, de crimes de tráfico de estupefacientes de alto risco, branqueamento de capitais, conversão e dissimulação de bens e associação criminosa, entre outros.
A operação contou com a colaboração da Polícia Nacional e da Direcção da Cadeia Central da Praia, tendo sido cumpridos dez mandados de busca e apreensão domiciliária.
Foram apreendidas duas armas de fogo, munições, cannabis, cocaína, produtos utilizados na preparação de estupefacientes, duas viaturas e equipamentos electrónicos que serão submetidos a perícia.
A comunicação social cabo-verdiana avançou ainda que entre os detidos se encontram antigos funcionários da transportadora aérea TACV, informação que não consta da identificação dos suspeitos divulgada no comunicado da PJ.
O problema já não é apenas a droga
A nova fase da Operação “Shark” introduz uma questão que ultrapassa a dimensão exclusivamente policial do processo.
Se as suspeitas vierem a ser confirmadas, poderá estar em causa não apenas uma rede de tráfico de estupefacientes, mas também a utilização de relações com agentes e funcionários públicos para facilitar actividades criminosas.
É uma hipótese suficientemente grave para exigir investigação rigorosa e esclarecimentos institucionais.
Importa apurar que papel, se algum, os agentes da Polícia Nacional e os guardas prisionais terão desempenhado na alegada organização criminosa e se existiram falhas nos mecanismos de fiscalização e controlo interno.
A detenção de funcionários de instituições responsáveis pela segurança pública e pelo sistema prisional coloca inevitavelmente a questão da capacidade do Estado para prevenir e detectar eventuais ligações entre os seus agentes e estruturas criminosas.
Mas há uma distinção fundamental: estar detido ou indiciado não equivale a ser culpado. Os factos continuam sujeitos à investigação e à apreciação dos tribunais, e todos os suspeitos beneficiam da presunção de inocência.
Vinte suspeitos apresentados ao tribunal
Os 20 indivíduos detidos foram conduzidos esta quarta-feira, 4 de Novembro, ao Tribunal da Comarca da Praia, sob forte escolta policial.
De acordo com a agência Inforpress, os suspeitos chegaram ao tribunal por volta das 15 horas, em três viaturas, perante a presença de agentes policiais, familiares e cidadãos que acompanhavam o processo.
Até ao momento, não foi possível confirmar a divulgação das medidas de coacção aplicadas aos novos detidos.
O Notícias do Norte considera que a dimensão desta investigação exige esclarecimentos adicionais das autoridades, não apenas sobre a extensão da alegada rede criminosa, mas também sobre eventuais vulnerabilidades institucionais que a investigação possa revelar.
Porque, se o tráfico de droga representa uma ameaça à segurança pública, a eventual participação de agentes do próprio Estado em estruturas criminosas representaria um problema ainda mais profundo: o da confiança dos cidadãos nas instituições encarregadas de os proteger.
A Justiça terá agora de separar as suspeitas das provas, as responsabilidades individuais das institucionais e os factos das especulações.
E esse trabalho, num Estado de direito, não pode ser substituído nem pelo silêncio institucional nem pela condenação pública antecipada.