ECONOMIA | ANÁLISE – Combustíveis: Novembro traz algum alívio, mas não apaga os aumentos de Outubro — e o Estado assume a factura do gás

2/11/2026 08:40 - Modificado em 2/11/2026 08:40

Depois da subida média de 10,7% em Outubro, os preços dos combustíveis voltam a mexer em Novembro. A gasolina e o gasóleo descem, mas os fuelóleos e o petróleo continuam a subir. O Governo impede um novo aumento do gás doméstico, assumindo a totalidade da diferença. A questão é saber quanto custa esta protecção, quem a financia e até quando poderá ser mantida.

A actualização dos preços dos combustíveis para Novembro apresenta uma aparente contradição: a gasolina e o gasóleo ficam mais baratos, mas a Agência Reguladora Multissetorial da Economia (ARME) anuncia uma subida média de 0,29%.

A explicação está na evolução diferenciada dos produtos petrolíferos. Enquanto alguns combustíveis utilizados nos transportes registam descidas, outros, com importância para a actividade económica, continuam a encarecer.

Mas existe um dado que não pode desaparecer no meio das percentagens: os consumidores cabo-verdianos continuam a pagar, em Novembro, preços significativamente superiores aos praticados em Setembro.

É esta a leitura que importa fazer, para além da comparação entre dois meses consecutivos. ARME +2

A descida de Novembro não anula a subida de Outubro

Em Outubro, Cabo Verde enfrentou um aumento médio de 10,7% dos combustíveis, depois de uma subida de 4,51% em Setembro.

Agora, a gasolina desce 7$90 por litro e o gasóleo normal 4$50.

A redução é bem-vinda, sobretudo para os automobilistas, transportadores e empresas dependentes destes combustíveis. Mas está longe de devolver os preços aos níveis anteriores.

Evolução dos preços — Setembro a Novembro de 2026

| Combustível | Setembro | Outubro | Novembro |

| Gasolina (litro) | 175$40 | 197$20 | 189$30 |

| Gasóleo normal (litro) | 169$40 | 190$30 | 185$80 |

| Gasóleo marinha (litro) | 135$20 | 153$30 | 149$40 |

| Fuelóleo 380 (kg) | 89$50 | 94$80 | 100$20 |

| Fuelóleo 180 (kg) | 97$60 | 104$90 | 109$20 |

Fonte: tabelas oficiais da ARME. Valores em escudos cabo-verdianos.

Os números mostram que, comparativamente a Setembro, a gasolina continua 7,92% mais cara e o gasóleo normal 9,68%.

Ainda mais expressiva é a evolução dos fuelóleos: o fuelóleo 380 já custa praticamente 12% mais do que em Setembro.

A descida registada em Novembro deve, por isso, ser entendida como um alívio parcial, e não como uma inversão consolidada da pressão sobre os preços.

O perigo escondido nos fuelóleos

Enquanto a atenção pública se concentra no preço da gasolina e do gasóleo, os fuelóleos continuam a subir.

Em Novembro, o fuelóleo 380 aumenta 5,7% e o fuelóleo 180 sobe 4,1%.

Este movimento merece particular atenção porque estes combustíveis estão associados a actividades produtivas e à geração de energia.

É verdade que o gasóleo destinado à produção de electricidade desce de 175$80 para 171$20 por litro. Mas a subida simultânea dos fuelóleos demonstra que a evolução dos custos energéticos não é uniforme.

Não é possível concluir, apenas com estes números, que haverá um aumento das tarifas de electricidade. Mas também seria precipitado anunciar um alívio generalizado nos custos de produção.

Num país onde os custos de energia influenciam a competitividade das empresas, os preços dos produtos e os serviços, as consequências podem ultrapassar largamente o que os consumidores pagam nas bombas.

A questão que permanece é saber até que ponto estas oscilações continuarão a pressionar os custos de produção e, por essa via, o preço final dos bens e serviços.

O gás não aumenta, mas alguém paga a diferença

A decisão mais relevante de Novembro talvez não esteja na descida da gasolina, mas na manutenção do preço do gás butano. Sem a intervenção do Governo, o gás aumentaria 40,90%, ou seja, mais 61$10 por quilograma. Uma garrafa de 12,5 quilogramas, que continua a custar 1.868 escudos, poderia aproximar-se dos 2.632 escudos.

Para evitar esse agravamento, o Executivo decidiu assumir integralmente a diferença entre o preço calculado pela fórmula normal e aquele que chega ao consumidor.

Em Outubro, a comparticipação pública era de 70%. Em Novembro passa a 100% do diferencial. A decisão tem evidente alcance social. O gás doméstico é um bem essencial e a sua subida afectaria particularmente as famílias de menores rendimentos.

Mas existe uma realidade económica que não deve ser ignorada: o aumento não desapareceu. Deixou simplesmente de ser pago directamente pelo consumidor e passou a ser suportado pelo Orçamento do Estado. BOE +1

É uma escolha política legítima, mas com custos que precisam de ser conhecidos.

Quanto gastará o Estado, no total, com esta compensação? Que dotação orçamental financiará a medida? E durante quanto tempo poderá continuar a suportar a diferença, caso os preços internacionais permaneçam elevados?

São perguntas que não retiram mérito à protecção das famílias. Pelo contrário, são essenciais para avaliar a sua sustentabilidade.

Há ainda outra questão: a compensação abrange o consumo de gás independentemente da condição económica dos beneficiários. Importa, por isso, discutir se, perante uma crise prolongada, um apoio mais direccionado às famílias vulneráveis não permitiria proteger quem mais precisa, com menor pressão sobre as contas públicas.

O petróleo internacional continua a pressionar Cabo Verde

A descida de alguns combustíveis acontece num contexto internacional que permanece desfavorável. Segundo a ARME, a cotação média do petróleo Brent subiu de 99,16 dólares por barril, em Setembro, para 105,76 dólares, em Outubro, um aumento de 6,65%.

A agência relaciona esta evolução com as tensões geopolíticas no Médio Oriente, os receios de perturbações no abastecimento e os constrangimentos na oferta internacional.

Para Cabo Verde, a situação continua particularmente delicada. O país importa os combustíveis que consome e está sujeito não apenas às cotações internacionais, mas também à evolução da relação cambial entre o euro e o dólar. ARME +1

É uma vulnerabilidade estrutural que o Notícias do Norte tem vindo a destacar nas sucessivas análises mensais.

Um aumento internacional pode ser rapidamente transmitido aos custos internos. Uma descida, por sua vez, nem sempre se reflecte imediatamente nos preços dos transportes, dos bens alimentares ou dos serviços.

As empresas que suportaram custos mais elevados durante os meses anteriores nem sempre conseguem reduzir os seus preços com a mesma rapidez. É por isso que a descida da gasolina, embora positiva, não significa automaticamente uma redução do custo de vida.

A economia continua dependente de decisões tomadas lá fora

A sucessão de aumentos, descidas e mecanismos extraordinários de compensação demonstra que o problema de Cabo Verde não pode ser resolvido exclusivamente através de intervenções mensais nos preços.

Enquanto o país continuar fortemente dependente dos combustíveis importados, as crises internacionais continuarão a repercutir-se nos orçamentos das famílias, nas empresas e nas finanças públicas.

A aposta nas energias renováveis, na eficiência energética e na redução da dependência dos produtos petrolíferos deixa, assim, de ser apenas uma questão ambiental. É também uma necessidade económica.

O Governo pode amortecer os efeitos das crises internacionais, mas não consegue eliminar a sua origem.

E quanto maior for o recurso a mecanismos de compensação, mais importante se torna conhecer os respectivos custos e estabelecer prioridades claras na utilização dos recursos públicos.

A factura que não desaparece

Novembro traz algum alívio aos automobilistas e transportadores. Mas, olhando para os últimos três meses, os combustíveis continuam caros, os fuelóleos acumulam aumentos e o gás doméstico só mantém o preço porque o Estado decidiu assumir integralmente a diferença.

A Resolução n.º 117/2026 prevê a continuidade do mecanismo de protecção do gás em Dezembro, salvo nova decisão governamental. A questão do seu financiamento, portanto, não termina em Novembro. BOE

O Notícias do Norte considera que a protecção das famílias perante aumentos excepcionais é necessária. Mas essa protecção deve ser acompanhada de transparência sobre os custos, os beneficiários e a sua sustentabilidade.

Porque há uma diferença entre impedir que uma factura chegue directamente à cozinha das famílias e fazer desaparecer essa factura da economia.

Em Novembro, o consumidor não paga o aumento do gás na bomba ou no momento de comprar a garrafa. Mas o Estado paga. E o dinheiro do Estado, como sabemos, não nasce por geração espontânea.

Notícias do Norte — Análise Económica | 2 de Novembro de 2026

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