Eleições em Israel: “Todas as opções são más para a oposição”

29/10/2026 08:55 - Modificado em 29/10/2026 08:55
© Amnon Gutman/Bloomberg via Getty Images

O professor de Ciência Política Alon Yakter analisa o impasse político em Israel após as eleições, destacando as dificuldades da oposição em encontrar uma saída.

O professor de Ciência Política Alon Yakter considera que “todas as opções são más” para o bloco de oposição em Israel, embora ainda mantenha o poder de encontrar uma saída para o impasse político criado pelas últimas legislativas.

Dois dias após uma eleição com uma participação histórica, e quando faltavam contabilizar pouco menos de 10% dos votos, o partido Likud, do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, liderava o apuramento, mas longe do “número mágico” de 61 lugares que permitem controlar o parlamento (Knesset), incluindo a soma dos resultados com os seus aliados de extrema-direita e ultraortodoxos.

Na mesma situação encontrava-se o Yashar!, do ex-general Gadi Eisenkot, que seguia em segundo lugar na contagem, e igualmente aquém de uma maioria com as restantes três forças de base sionista que constituem o chamado bloco da mudança, a menos que se entenda com os dois grupos árabes, que deverão eleger 19 deputados.

“Portanto, temos três blocos: o de Netanyahu, o anti-Netanyahu e dos árabes, e nenhum deles tem maioria”, resume à agencia Lusa o professor catedrático na Faculdade de Ciência Política, Governo e Relações Internacionais da Universidade de Telavive, sobre o labirinto que resultou da votação realizada na terça-feira.

A partir desta clarificação dos centros de poder no futuro parlamento, e que já não deverá ser alterada até ao final da contagem dos últimos votos, o académico destaca que “Netanyahu não vai colaborar com os árabes”, o que significa que o diálogo só pode acontecer entre dois blocos.

Este quadro permite à oposição “manter o controlo da situação”, mas “todas as opções são más e vai ter de pagar o preço de qualquer uma delas”, porque ou negoceia com Netanyahu ou com os árabes, ou ainda, como derradeira alternativa, “tem de desistir e haverá novas eleições”.

Esta última escolha, segundo Alon Yakter, teria como consequência provável que “o entusiasmo no campo político da oposição diminua e que Netanyahu e o seu bloco obtenham mais votos”, talvez até uma vitória, “e aí o jogo acaba”, ou pelo menos conseguem um empate, “só que com mais alguns lugares” a seu favor no parlamento.

Um entendimento da oposição com o Likud “também parece muito difícil”, na medida em que “os requisitos mínimos são provavelmente muito superiores” ao que os grupos da mudança podem oferecer “ou ao que os seus eleitores estariam dispostos a aceitar”.

A alternativa final seria uma aliança com as duas formações árabes, Lista Conjunta e Ra’am, mas também “quebrar um tabu”, uma vez que, à exceção da coligação de centro-esquerda Democratas, os restantes partidos opositores têm recusado este entendimento.

Além disso, “também não é claro se, do ponto de vista ideológico, estão dispostos a quebrar uma promessa e qual seria o primeiro a fazê-lo”, observa a propósito do compromisso com a criação de um governo de base sionista, que Gadi Eisenkot reforçou na noite eleitoral.

O docente da Universidade de Telavive assinala porém sondagens a dar conta de que cerca de 60% dos eleitores no bloco da mudança preferem um executivo minoritário com apoio parlamentar dos árabes a um governo de unidade com o Likud de Netanyahu.

“A partir daqui, não faço ideia do que vai acontecer”, reconhece Alon Yakter, quando os principais dirigentes partidários reagiram com cautela aos resultados e “ficaram calados” nas últimas 24 horas, dentro de “uma cortina de fumo” sobre as suas iniciativas pós-eleitorais, “pelo menos até que todos os votos estejam contados”.

O académico diz que, se tivesse no lugar dos estrategas dos partidos de oposição, procuraria “usar os limões para fazer limonada” e encontrar uma saída que talvez lhes permita afastar o atual primeiro-ministro e assumir o poder, embora ignore se é nela que eles estão a pensar.

Na ressaca pós-eleitoral, que provocou uma “grande desilusão” nas bases de apoio que clamavam mudança, os seus líderes podem agora sugerir que não obtiveram um mandato claro, mas também não querem depender dos árabes.

“Mas nesta fase, o bloco de oposição pode recorrer à aliança com os árabes e dar pelo menos o primeiro passo, antes da formação de um governo, substituir o presidente do Knesset, assumir o controlo das comissões parlamentares e começar a legislar mesmo sem um executivo”, analisa.

Nesse sentido, e “apesar de parecer uma ideia fraca”, os opositores podem argumentar que, para haver uma mudança, “vão empossar um governo minoritário” com apoio árabe como medida temporária e com o objetivo de ir a novas eleições mais à frente.

“Antes disso já assumiram o poder, para que Netanyahu não seja primeiro-ministro interino, estabilizaram a situação, tomaram o controlo da guerra, do orçamento e da gestão do país, e só depois vão a eleições”, refere o docente de Ciência Política.

Qualquer uma das outras opções “significa abdicar do poder, deixando simplesmente que Netanyahu volte ao controlo”, ou seja, seria “um suicídio político” para os grupos da mudança.

Alon Yakter comenta que havia uma “grande expectativa” antes das legislativas, no sentido em que o bloco da mudança, que agrupa três forças de centro e direita (o Yashar!, a coligação Juntos, dos antigos primeiros-ministros Naftali Bennett e Yair Lapid, e Israel é a Nossa Casa, de Avigdor Lieberman) e ainda a aliança de centro-esquerda Democratas, “contava com a maioria dos votos da comunidade judaica” e obter mais lugares no knesset.

“O facto de não o terem conseguido e de o Likud ter acabado por ser o partido com mais votos faz com que isto pareça uma grande desilusão”, avalia.

No entanto, frisa que “o principal resultado continua a ser que Netanyahu perdeu e o seu bloco também perdeu” e o que está a acontecer “é apenas um impasse, embora muito grande”.

Se país não sair do labirinto em que se encontra e voltar às urnas muito em breve, “dificilmente haverá mudanças drásticas” em relação aos resultados de terça-feira, dado que a participação atingiu o valor recorde de 77,7% nos últimos 25 anos e já não sobre grande margem para crescer.

Em alternativa, o professor da Universidade de Telavive sugere que “está na hora de dar asas à criatividade, porque os impasses servem todos para estimulá-la”.

Lusa

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