A fatura saiu da bomba: importações sobem 25,7% e pressão chega àconstrução, alimentos e consumo

21/10/2026 08:43 - Modificado em 21/10/2026 08:53

Os preços dos produtos importados por Cabo Verde aumentaram 25,7% em Setembro, comparativamente ao mesmo mês de 2025, confirmando o cenário que o NN vem alertando desde o início da escalada energética: o aumento dos combustíveis não fica na bomba. Entra nos barcos, nos camiões, na construção, na produção e acaba por viajar até ao consumidor.

Segundo o Índice de Preços do Comércio Externo divulgado pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), os preços das importações subiram 5,9% apenas entre Agosto e Setembro, invertendo a descida de 1,8% registada no mês anterior. O índice passou de 152,4 para 161,3 pontos.

A subida mensal foi impulsionada pelos bens intermédios, que aumentaram 11,1%. Dentro deste grupo, os produtos transformados destinados à construção encareceram 18,9%.

Os combustíveis importados ficaram 6,1% mais caros, enquanto os bens de consumo aumentaram 4,7%. Nos produtos alimentares transformados, a subida mensal chegou aos 5,9%.

Combustíveis 56% mais caros num ano

A comparação homóloga mostra uma pressão ainda mais forte em determinadas categorias. Os combustíveis importados estavam, em Setembro, 56% mais caros do que no mesmo mês de 2025. Os produtos transformados destinados à agricultura aumentaram 32% e os motores para material de transporte encareceram 24%.

Os números dão expressão estatística ao que o NN tem defendido: combustível caro raramente fica apenas no depósito do automóvel.

Entra no barco que transporta mercadorias entre as ilhas. Entra no camião que as leva do porto até ao armazém. Entra no barco de pesca, nas máquinas, na produção de água e eletricidade e nos materiais utilizados pela construção.

No fim da viagem, aparece no preço de um saco de cimento, no custo de uma obra, na fatura do transporte ou na margem necessária para colocar um produto na prateleira.

Não significa inflação de 25,7% nas lojas

Os dados devem, contudo, ser interpretados com rigor. Uma subida de 25,7% nos preços dos produtos importados não significa que todos os preços pagos pelas famílias tenham aumentado na mesma proporção.

O Índice de Preços do Comércio Externo mede os preços das mercadorias quando entram ou saem do país. O Índice de Preços no Consumidor, que mede aquilo que as famílias efetivamente pagam, registou em Setembro uma inflação homóloga de 2,7%.

A diferença pode resultar do peso distinto dos produtos, da existência de stocks adquiridos anteriormente, das margens comerciais e de medidas públicas de mitigação. Mas também significa que parte do aumento ainda pode estar a percorrer a cadeia até ao consumidor.

O preço de importação é o aviso à entrada. A inflação é aquilo que aparece mais tarde na caixa do supermercado.

Cabo Verde compra caro e vende sem acompanhar

Os dados revelam igualmente uma deterioração das relações comerciais do país.

Enquanto os preços das importações aumentaram 25,7% em termos homólogos, os produtos exportados encareceram apenas 3,5%. Como resultado, o Índice de Termos de Troca caiu 17,7%, passando de 114,4 para 94,2 pontos.

Na prática, Cabo Verde está a pagar muito mais pelo que compra ao exterior sem conseguir uma valorização equivalente daquilo que vende. O país precisa de exportar mais para financiar a mesma quantidade de importações.

Para uma economia dependente do exterior em combustíveis, alimentos, equipamentos e materiais de construção, esta diferença reduz rendimento nacional e aumenta a vulnerabilidade das famílias e das empresas.

Apoios sectoriais não travam toda a onda

O Governo limitou o aumento do gás butano e aprovou uma redução de 10% no gasóleo especial destinado à pesca semi-industrial e industrial. Entretanto, anunciou que poderá cortar viagens, consultorias e outras despesas públicas caso a pressão continue.

São respostas que podem aliviar sectores específicos. Mas os dados do INE mostram que a pressão já ultrapassou esses limites.

A construção enfrenta produtos transformados 18,9% mais caros num único mês. Os alimentos transformados importados subiram 5,9%. Os combustíveis aumentaram 6,1%. E permanecem sem uma resposta equivalente os transportes públicos, táxis, hiaces, transporte de mercadorias, agricultura, pesca artesanal e pequenas empresas.

A crise entrou pela bomba, mas já não mora apenas lá.

Agora está nos portos, nos armazéns, nas obras e na distribuição. E quando finalmente chegar por inteiro à prateleira, talvez já seja tarde para anunciar que o Governo poderá agir “caso a pressão se mantenha”.

A pressão já se mantém. O INE acaba de lhe colocar números.

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