
A tragédia do Fogo não começou quando o autocarro perdeu os travões. Começou antes, em cada controlo que falhou, em cada regra ignorada, em cada autoridade ausente, em cada silêncio cúmplice. E se depois de 25 mortos tudo ficar na mesma, então o problema já não será apenas daquele autocarro. Será de um país que ainda não aprendeu a transformar a dor em responsabilidade.
Eduino Santos
O relatório técnico-administrativo sobre o acidente do Fogo confirma aquilo que, desde o primeiro momento, tinha de ser perguntado sem rodeios: como é que uma viatura nestas condições circulava numa estrada de montanha, transportando crianças e jovens?
A falha total do sistema de travagem é apontada como a causa directa e determinante da tragédia. Mas o próprio relatório mostra que essa falha não apareceu do nada. Antes da descida fatal, já havia uma cadeia de sinais ignorados: viatura sobrelotada, inspecção caducada, travões desgastados, alterações artesanais no sistema de travagem, ausência de travão auxiliar por escape, anomalias na direcção e uma estrada sem sistemas de contenção adequados.
Uma falha técnica pode acontecer. Pode ser inesperada, súbita, imprevisível. Mas deixa de ser apenas “falha técnica” quando nasce da incúria, da negligência, da falta de fiscalização e da habituação perigosa ao desenrascanço.
O relatório diz que a viatura transportava 38 passageiros, quando tinha capacidade para 30. Oito pessoas a mais. E aqui a pergunta é inevitável: quem autorizou aquelas crianças e jovens a entrar numa viatura sobrelotada? Quem contou? Quem viu? Quem decidiu seguir viagem? Quem tinha o dever de impedir e não impediu?
Também não é uma pergunta menor saber como uma viatura com a inspecção caducada há cerca de seis meses, com desgaste severo nos travões e alterações artesanais no sistema de travagem, continuava a circular. Se ninguém viu, porquê? Se alguém viu, por que razão deixou passar?
Cabo Verde tem uma tendência antiga e perigosa: chora os mortos, anuncia inquéritos, apresenta relatórios, faz recomendações e depois segue em frente, como se a memória pública tivesse prazo de validade curto. A culpa, quase sempre, morre solteira. Morre sem pai, sem mãe, sem assinatura, sem despacho, sem consequência.
Mas 25 pessoas morreram. Treze ficaram feridas. Famílias inteiras ficaram marcadas. E não basta dizer que houve sobreaquecimento dos travões, dilatação dos tambores ou perda de atrito. Isso explica a mecânica da queda. Não explica a mecânica da irresponsabilidade.
O que se vai fazer agora? Instalar um centro de inspeção no Fogo? Fiscalizar de verdade os transportes coletivos? Impedir a circulação de viaturas sem condições? Responsabilizar quem autorizou, quem facilitou, quem fechou os olhos? Ou vamos, à moda de Cabo Verde, guardar o relatório numa gaveta, deixar a indignação arrefecer e seguir vergonhosamente em frente até à próxima tragédia, ao próximo inquérito, ao próximo relatório sobre a causa da morte de inocentes?
A tragédia do Fogo não começou quando o autocarro perdeu os travões. Começou antes, em cada controlo que falhou, em cada regra ignorada, em cada autoridade ausente, em cada silêncio cúmplice.
E se depois de 25 mortos tudo ficar na mesma, então o problema já não será apenas daquele autocarro. Será de um país que ainda não aprendeu a transformar a dor em responsabilidade.