Relatório confirma falha nos travões e dá razão às primeiras dúvidas levantadas pelo NN sobre sobrelotação no acidente do Fogo

13/10/2026 08:15 - Modificado em 13/10/2026 13:20

O relatório do inquérito técnico-administrativo sobre a tragédia de 05 de Setembro, no Fogo, confirmou que a “falha total do sistema de travagem” foi a causa directa e determinante do acidente que provocou 25 mortos e 13 feridos no troço entre Chã das Caldeiras e Campanas de Cima, no sítio conhecido por Ribeira Lachido.

Mas o documento agora apresentado vai além da causa mecânica imediata. O relatório descreve uma cadeia de falhas que começou antes da descida fatal: viatura sobrelotada, inspecção caducada, travões desgastados, alterações artesanais no sistema de travagem, ausência de travão auxiliar por escape, anomalias na direcção e falta de sistemas de contenção na estrada.

Segundo o director-geral dos Transportes Rodoviários, Emanuel Almeida, a viatura transportava 38 passageiros, apesar de ter capacidade para apenas 30. Este é um dos dados centrais do relatório e confirma uma das primeiras informações avançadas pelo Notícias do Norte, que, logo após o acidente, colocou a sobrelotação entre os factores que poderiam ter contribuído para a tragédia.

Na altura, quando ainda dominavam a dor, o choque e as primeiras versões desencontradas, o NN noticiou que o excesso de passageiros teria de ser investigado como possível elemento agravante. O relatório agora apresentado confirma que a viatura seguia com oito pessoas acima da lotação permitida, num percurso de descida prolongada e exigente para o sistema de travagem.

A investigação concluiu que os travões sobreaqueceram durante a descida, provocando a dilatação dos tambores, a perda de atrito e, por consequência, a perda da capacidade de travagem. A medição dos tambores registou 325 milímetros, acima do limite máximo de 322 milímetros indicado no relatório.

O documento identifica ainda “desgaste severo” e “alterações artesanais” no sistema de travagem, incluindo soldaduras e adições metálicas que modificaram a geometria original do sistema. A última inspecção da viatura tinha sido realizada a 30 de Novembro de 2025, com validade até 28 de Fevereiro de 2026, estando caducada há cerca de seis meses à data do acidente.

O relatório afasta, por outro lado, a hipótese de negligência voluntária do condutor e também uma crise hipoglicémica incapacitante, apesar de o motorista ser diabético. A conclusão aponta para uma conjugação de factores mecânicos, humanos, rodoviários e administrativos.

A ausência de barreiras metálicas, muros ou outros sistemas de contenção passiva na estrada foi igualmente apontada como uma vulnerabilidade. O autocarro saiu da via e caiu de uma altura de cerca de 30 metros, durante um passeio que transportava jovens estudantes e outros passageiros.

Entre as recomendações, o relatório propõe a instalação de um centro de inspecção permanente na ilha do Fogo, a introdução de tacógrafos digitais, o reforço da fiscalização, o controlo efectivo do peso e do número de passageiros, a imobilização de veículos sem condições de segurança e formação mais especializada dos condutores, sobretudo na gestão térmica dos sistemas de travagem.

A tragédia do Fogo fica, assim, inscrita não apenas como um acidente causado por travões que falharam, mas como o resultado de um sistema que também falhou: na inspecção, na fiscalização, na manutenção, no controlo da lotação e na segurança da estrada.

Para as famílias das vítimas, o relatório não devolve vidas. Mas confirma que havia sinais que podiam e deviam ter sido prevenidos. E confirma também que a pergunta colocada desde os primeiros dias pelo NN, sobre o peso da sobrelotação e das condições da viatura, não era especulação: era uma linha essencial de apuramento numa tragédia que não pode ficar apenas na memória da dor.

NN

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