EDITORIAL — A casa do vidro partido

29/09/2026 09:02 - Modificado em 29/09/2026 09:02
Noticias do Norte

Alguém passa diante de uma casa e vê um vidro partido. Apanha uma pedra e parte outro. Ninguém aparece. Ninguém pergunta. Ninguém responsabiliza.

No dia seguinte, outro indivíduo aproxima-se, testa a porta e arromba-a. Também nada acontece. Não há dono, polícia, vizinho ou autoridade que se faça ouvir.

Até que, certa manhã, a casa é invadida.

Nesse momento, todos perguntam como foi possível chegar tão longe. Esquecem-se de que a invasão não começou quando a porta caiu. Começou no primeiro vidro partido, quando todos viram e decidiram que não era suficientemente grave para agir.

A democracia também pode ser uma casa assim.

Em fevereiro, Gilson Alves anunciou a sua candidatura presidencial numa entrevista à TCV, surgindo num ambiente escuro, acompanhado por quatro homens encapuzados e armados com facas, catana e uma barra de ferro. Defendeu um sistema autoritário, um Presidente com “poder total e absoluto” e a pena de morte para juízes, procuradores e polícias que classificasse como corruptos. Falou ainda em tomar o poder “à força ou a jeito” e na criação de uma lista de pessoas a executar.

Não era apenas mais uma excentricidade de campanha. Era a colocação pública da violência, da intimidação e do autoritarismo dentro do espaço democrático — transmitida pela televisão pública como matéria jornalística e em horário nobre.

A ARC abriu um processo de averiguação à TCV. O Ministério Público interveio. Gilson Alves foi detido e submetido a medidas de coação no âmbito de um processo por suspeitas de instigação pública ao crime, quadrilha ou bando e posse de armas. O processo continuou em investigação e sob segredo de justiça.

Houve, portanto, reacções institucionais. Mas o país parece ter tratado o episódio como mais uma tempestade destinada a desaparecer do noticiário. O vidro ficou partido.

Meses depois, Gilson Alves viu a sua candidatura admitida pelo Tribunal Constitucional e voltou ao centro da cobertura eleitoral. Quando uma jornalista da Inforpress o contactou para recolher a sua reacção, recebeu mensagens que a agência classificou como ofensivas e ameaçadoras. A profissional invocou objecção de consciência e recusou voltar a cobrir aquela candidatura, posição aceite pela direcção da Inforpress.

A AJOC manifestou solidariedade com a jornalista e recomendou “especial prudência” nos contactos com o candidato: comunicações preferencialmente por escrito, através de canais institucionais ou na presença de outros profissionais. Fez questão de esclarecer que não defendia censura nem exclusão jornalística da candidatura. Defendia algo mais elementar: que nenhum jornalista deve trabalhar com medo.

Gilson Alves respondeu acusando a associação de “corrupção jornalística institucional” e anunciou que enviaria o comunicado à Comissão Nacional de Eleições. É o seu direito contestar, recorrer e apresentar a sua versão. O que não pode é transformar-se cada novo episódio numa folha em branco, como se nada tivesse acontecido antes.

Um candidato presidencial não é um cidadão qualquer no exercício privado do mau humor. É alguém que pede aos cabo-verdianos a autoridade moral e constitucional para representar a República. As suas palavras, os seus gestos e o ambiente que escolhe para comunicar são matéria de escrutínio público.

A democracia não proíbe discursos autoritários para fingir que eles não existem. Combate-os mostrando o que são. Também não deve excluir uma candidatura legalmente admitida da cobertura jornalística. Mas igualdade de tratamento não significa ingenuidade, amnésia ou obrigação de expor profissionais a ambientes que considerem hostis.

O candidato tem direito à cobertura. Os jornalistas têm direito à dignidade e à segurança. E o público tem direito a conhecer não apenas as propostas eleitorais, mas também o comportamento de quem pretende ocupar a Presidência da República.

O problema de Cabo Verde é que, demasiadas vezes, cada instituição trata apenas do pedaço que lhe chega às mãos. Abre-se uma averiguação, anuncia-se uma queixa, inicia-se um processo e produz-se um comunicado. Depois, o silêncio encarrega-se de dissolver responsabilidades.

É assim que, entre nós, a culpa morre sempre solteira: toda a gente a conhece, ninguém assume a paternidade e quase nunca aparece quem a leve ao altar da responsabilidade.

Entretanto, o vidro continua partido.

Depois parte-se outro.

A seguir, arromba-se a porta.

E um dia, quando a casa democrática estiver ocupada por quem despreza as suas regras, haverá muita gente a perguntar como foi possível.

Foi possível porque os sinais estavam à vista. Porque cada excesso foi tratado isoladamente. Porque o escândalo seguinte apagou o anterior. Porque a memória pública durou menos do que a gravidade dos factos.

Uma democracia não se perde apenas num golpe. Pode perder-se lentamente, quando começa a aceitar como folclore aquilo que deveria reconhecer como ameaça, quando confunde prudência com censura e quando deixa os jornalistas sozinhos diante de quem pretende intimidá-los.

A casa ainda não foi invadida.

Mas já tem vidros partidos.

E continuar a fingir que não os vemos será a forma mais segura de, um dia, descobrirmos que já não temos casa.

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