Te fuiste? Cómo? Por qué? — Hasta siempre, Filó

17/09/2026 19:25 - Modificado em 17/09/2026 19:25

Filomena Silva morreu esta manhã. Mas há notícias que um jornalista sabe escrever e outras que as mãos recusam transformar em notícia. Esta é sobre a Filó. Colega, amiga e companheira de uma geração que aprendeu que fazer jornalismo em Cabo Verde também podia significar passar pelo Ministério Público.

Eduíno Santos

Morreste? Como? Porquê?

Sei que todos morrem. É uma daquelas verdades que aprendemos cedo e passamos a vida inteira a fingir que não sabemos. Mas achei que gente da tua fibra não morria.

Filó, foste-te.

E custa-me escrever isto porque a nossa vida no jornalismo parecia destinada a cruzar-se permanentemente. Cruzou-se muitas vezes, quase nos  juntou numa mesma redação e acabamos  por seguir projetos diferentes.

Mas nunca caminhos verdadeiramente separados. Ficou sempre a amizade. A admiração

Ficou aquele grande abraço quando nos encontrávamos.

E ficou, sobretudo, “quel risada, sabê, que abafava tudo”.

Aquela gargalhada que chegava antes do resto da conversa e parecia dizer que, apesar das nossas guerras, dos processos, dos governos, dos jornais que nasciam e morriam e das zangas próprias desta profissão, ainda valia a pena estarmos ali.

Hoje não consigo ouvi-la. E talvez seja isso que mais dói.

Mas o conto volta atrás

Ainda não existia A Semana.

Cabo Verde acabara de descobrir a democracia e alguns dos jovens turcos do MpD, apesar da novidade democrática que anunciavam, ainda tresandavam ao ranço do autoritarismo marxista-leninista que diziam ter derrotado.

O jornal Notícias era então uma das poucas vozes críticas do novo poder.

E havia que domesticá-lo. Uma das formas encontradas foi aquela velha especialidade dos poderes que não gostam de jornais incómodos: tribunais, processos, queixas.

Contra o diretor do Notícias chegaram dez queixas ao Ministério Público.

Dez. Sendo duas do próprio PGR

A estratégia parecia simples: se não se conseguia calar o jornal, talvez se conseguisse ocupar o diretora a defender-se.

Foi nesse ambiente que, através de um amigo comum, cheguei à Filó. Eu procurava uma maneira de desmontar aquela estratégia.

Encontrámo-nos. E fiz-lhe uma proposta:

Filó seria diretora do Notícias. Eu passaria a chefe de redação.

Falámos. Acertámos. Estava feito. Ou parecia estar.

E depois nasceu A Semana

Não vou contar hoje tudo o que aconteceu a seguir.

Há histórias que precisam de tempo. E há outras que, mesmo depois de décadas, ainda não amadureceram suficientemente para pertencer ao domínio público.

Basta dizer que os caminhos voltaram a separar-se.

Surgiu A Semana. Filomena Silva tornou-se sua diretora. Eu continuei diretor do Notícias. Aquilo que poderia ter sido uma redação tornou-se duas.

E talvez tenha sido melhor assim. Porque Cabo Verde ganhou dois jornais incómodos em vez de um.

A História encarregou-se depois de acrescentar a ironia.

Filó e eu acabámos os dois atolados em queixas no Ministério Público.

Cada um no seu jornal. Cada um com as suas batalhas.

Cada um pagando à sua maneira o preço daquela coisa estranha que alguns tinham dificuldade em compreender nos primeiros anos da democracia:

a liberdade de imprensa também inclui a liberdade de incomodar quem ganhou as eleições.

Filó era jornalista

Hoje vão escrever que Filomena Silva trabalhou no Voz di Povo.

Que dirigiu A Semana.

Que estudou em Cuba.

Que pertenceu a uma geração importante da comunicação social cabo-verdiana.

Que acompanhou a transformação da imprensa antes e depois da abertura política.

Tudo isso é verdade.

Mas quem conheceu Filó sabe que um currículo não explica uma pessoa.

Filó era jornalista.

E há uma diferença. Não apenas alguém que trabalhou num jornal.

Jornalista.

Daquelas pessoas para quem uma redação não era simplesmente um emprego e uma notícia não era simplesmente um texto que precisava de ficar pronto antes do fecho.

Tinha posições. Tinha convicções.

Tinha carácter. Podíamos discordar — e discordámos.

Seguimos projetos editoriais diferentes.

O tempo colocou-nos muitas vezes em lugares diferentes do debate político e jornalístico. Mas nunca conseguiu destruir aquilo que existia antes de todas essas diferenças. O respeito e a amizade.

“Quel risada, sabê, que abafava tudo”

É estranho como, quando alguém morre, a memória não obedece ao arquivo.

Não me aparece primeiro uma manchete de A Semana.

Nem uma reunião. Nem um processo judicial. Nem sequer aquela conversa em que quase te tornaste diretora do Notícias.

Apareces tu. Encontramo-nos. Abraçamo-nos. E ris.

“Quel risada, sabê, de munde.”

É essa que ficou.

Talvez porque, depois de tantos anos de jornalismo, percebemos finalmente que as grandes histórias não são necessariamente aquelas que pusemos na primeira página.

São as pessoas que fomos encontrando enquanto tentávamos escrevê-las.

Hoje, Filó, a notícia és tu. E eu preferia não ter de escrevê-la.

Preferia encontrar-te outra vez, receber aquele abraço e ouvir “quel risada” que fazia parecer que ainda tínhamos tempo para continuar a discutir jornais, política e este pequeno país onde passámos boa parte da vida a fazer perguntas.

Mas desta vez deixaste-me três perguntas às quais nem o jornalismo consegue responder:

Morreste?

Como?

Porquê?

Sei que todos morremos.

Mas continuo a achar injusto.

Gente da tua fibra não devia morrer. Hasta siempre, Filó

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