
A eleição de Paulo Veiga não é apenas uma mudança de presidente. É, antes de tudo, uma mudança do centro de gravidade do MpD.
Veiga venceu com o apoio explícito de Carlos Veiga, recebeu Orlando Dias depois da desistência deste e fez campanha contra aquilo que apresentou como excessiva concentração do partido em torno do Governo e da liderança de Ulisses Correia e Silva.
Por : Eduino Santos
A mensagem foi simples: o MpD afastou-se das bases, perdeu autonomia e precisa de voltar a ser partido antes de tentar voltar a ser Governo.
É isso que muda primeiro.
Paulo Veiga chega para reconstruir um partido que perdeu o poder e que, ironicamente, poucas semanas depois de dar ao país uma lição de normalidade democrática ao reconhecer rapidamente a derrota frente ao PAICV, conseguiu transformar a contagem dos seus próprios votos internos numa pequena guerra de atas.
Agora começa a parte difícil.
O regresso do “MpD original”?
Durante a campanha apareceu repetidamente a ideia de um regresso ao “MpD original”.
Não é apenas retórica.
Carlos Veiga entrou claramente ao lado de Paulo Veiga e Orlando Dias justificou o seu apoio falando precisamente na necessidade de recuperar a matriz original do partido.
Daí nasceu outra leitura: a vitória de Paulo Veiga significaria o afastamento das sensibilidades provenientes do PCD e do PRD, partidos que nasceram das duas grandes cisões históricas do MpD.
Há algum fundamento político nessa leitura, mas seria exagerado transformá-la já em facto.
Esses grupos deixaram há muito de existir dentro do MpD como blocos organizados com cartão de visita à porta. As antigas famílias misturaram-se, regressaram, fizeram alianças e atravessaram sucessivas direções.
O que parece ter perdido estas eleições não foi propriamente o PCD ou o PRD.
Foi o aparelho político consolidado durante o ciclo de Ulisses Correia e Silva.
Herménio Fernandes e Luís Filipe Tavares foram vistos como mais próximos dessa continuidade. Paulo Veiga apresentou-se como ruptura.
Se essa ruptura significará também afastar determinados grupos históricos só saberemos quando aparecer a nova direção.
E aí acaba a poesia da campanha.
Paulo Veiga prometeu que não haverá vencedores com tudo e vencidos sem lugar. A composição dos órgãos do partido dirá se era uma convicção ou apenas uma frase bonita para a noite eleitoral.
Carlos Veiga não é apenas uma fotografia na parede
Há uma relação política antiga que também ajuda a entender esta vitória.
Paulo Veiga dirigiu a campanha presidencial de Carlos Veiga em 2021 e, depois da derrota, pediu a exoneração do Governo de Ulisses Correia e Silva.
Nunca declarou publicamente que saiu porque considerava insuficiente o apoio do MpD e do Governo à candidatura de Carlos Veiga.
Mas essa foi, na altura, a leitura política amplamente divulgada e nunca verdadeiramente dissipada.
A demissão mostrou pelo menos uma coisa: Paulo Veiga não era apenas mais um ministro disciplinadamente sentado à mesa do Governo.
Quando entendeu que havia uma divergência política suficientemente séria, levantou-se.
Isso ajuda a explicar por que a sua chegada à presidência do MpD tem um significado diferente de uma simples sucessão administrativa.
O risco de trocar uma família por outra
A vitória de Paulo Veiga pode devolver protagonismo à velha matriz fundadora do MpD.
Mas aí está também o perigo.
Se a renovação significar apenas substituir os homens de Ulisses pelos homens de Carlos Veiga, então não houve renovação nenhuma. Apenas mudou a lista de convidados.
O desafio de Paulo Veiga é outro: transformar a vitória de uma corrente na reconstrução de um partido inteiro.
O MpD precisa de se reorganizar, voltar às bases, recuperar disciplina interna e sobretudo reaprender a falar para o país.
Porque a oposição não se ganha discutindo eternamente quem pertenceu ao PCD, ao PRD, quem é veiguista ou quem ficou demasiado tempo próximo do poder.
Ganha-se quando essas famílias deixam de ser mais importantes do que o próprio partido.
Paulo Veiga venceu a eleição.
Agora vamos saber se venceu apenas uma guerra interna ou se ganhou também condições para reconstruir o MpD.