Eurico Monteiro sai em defesa do GAPE e pede serenidade, mas a pergunta das atas continua por responder

9/09/2026 22:39 - Modificado em 9/09/2026 22:53

A direção interina do MpD entrou esta quarta-feira na polémica em torno das eleições internas. Depois de Paulo Veiga contestar os resultados provisórios e confrontar o GAPE com atas que, segundo a sua candidatura, não foram incorporadas no apuramento, Eurico Monteiro veio defender a honradez do órgão eleitoral e pedir contenção. O apelo pode acalmar os ânimos. Mas não resolve ainda a conta.

A guerra das atas chegou à direção do MpD. Horas depois de Paulo Veiga ter questionado publicamente a transparência do Gabinete de Apoio ao Processo Eleitoral (GAPE), o presidente interino do partido, Eurico Monteiro, saiu em defesa do órgão responsável pelas eleições internas.

Em comunicado dirigido aos militantes, Monteiro afirmou confiar na honradez dos responsáveis do GAPE e dos funcionários da sede nacional e rejeitou que lhes sejam imputadas condutas desonestas. Sublinhou ainda que o GAPE “não constrói resultados”, limitando-se a proclamá-los com base na documentação produzida pelas mesas de voto.

A frase vai diretamente ao centro da polémica.

Porque Paulo Veiga também diz exatamente que os seus números vêm da documentação das mesas: das atas.

Na conferência de imprensa realizada esta quarta-feira, Veiga afirmou que os resultados apresentados pela sua candidatura não são projeções nem estimativas, mas números retirados das atas assinadas depois da votação. Reivindicou vitórias em Santiago Sul, Maio, Brava, Boa Vista, Sal, São Nicolau, São Vicente e Santo Antão, além de vários círculos da diáspora, afirmando que apenas em Santiago Norte não foi o candidato mais votado.

O problema não é a honra. São os números

Eurico Monteiro admite que podem existir falhas procedimentais e lembra que os atos do GAPE são verificáveis através dos mecanismos internos de recurso.

É uma defesa institucional compreensível. Mas a questão levantada por Veiga não se resolve apenas com um certificado de boa conduta.

O candidato quer saber por que razão resultados que, segundo afirma, já constam das atas não apareceram no apuramento provisório apresentado pelo GAPE.

Em Santa Catarina de Santiago, por exemplo, Veiga diz que as atas lhe atribuem 307 votos contra 208 de Herménio Fernandes, uma vantagem de 99 votos. Na Praia, apresentou 665 votos para si contra 424 para Herménio. E no Sal apontou uma diferença de 30 votos entre as atas na posse da candidatura e os números divulgados pelo GAPE.

O GAPE, por seu lado, continua oficialmente com 3.867 votos para Paulo Veiga, 3.512 para Herménio Fernandes e 679 para Luís Filipe Tavares, uma vantagem provisória de apenas 355 votos. O órgão eleitoral deixou ainda dezenas de mesas fora desse apuramento e recordou que Fogo e Bélgica não tinham votado.

“Munições” para os adversários

Eurico Monteiro mostrou também preocupação com a dimensão pública da disputa interna. Alertou que a exposição das divisões do partido acaba por oferecer “munições gratuitamente oferecidas” aos adversários e pediu aos candidatos e apoiantes que moderem a linguagem.

É o velho problema das famílias numerosas: todos podem discutir à mesa, mas ninguém gosta que os vizinhos escutem pela janela.

Só que, neste caso, há votos pelo meio.

E enquanto o GAPE não apresentar o apuramento mesa a mesa ou explicar por que determinadas atas ainda não foram incorporadas, a polémica dificilmente desaparecerá com um apelo à serenidade.

Luís Filipe Tavares já anunciou que só falará depois dos resultados definitivos. A Inforpress tentou obter uma reação de Herménio Fernandes, mas não conseguiu.

Por enquanto, Paulo Veiga continua à frente, o GAPE continua a dizer que os resultados são provisórios e Eurico Monteiro pede calma.

Falta apenas aquilo que, numa eleição, costuma ser a parte mais simples: fazer com que todas as atas e todos os números contem a mesma história.

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