A Direcção Nacional aprovou, com 85% dos votos, o apoio a Joana Rosa para as presidenciais. A decisão é estatutariamente legítima. Mas chega a poucos dias da eleição do novo líder do MpD, que receberá o partido com uma das suas primeiras grandes decisões políticas já tomada.

O MpD ainda não sabe quem será o seu próximo presidente.Mas já sabe quem quer apoiar para Presidente da República.A Direção Nacional decidiu apoiar Joana Rosa nas presidenciais de 15 de Novembro, numa votação realizada por videoconferência e aprovada, segundo o partido, por 85% dos seus membros.
À primeira vista há uma pergunta inevitável: pode uma liderança interina deixar ao próximo presidente uma candidatura presidencial já escolhida?
A resposta exige separar Estatutos de política.
Eurico é interino. A Direção Nacional não
O cruzamento feito pelo Notícias do Norte com os Estatutos do MpD mostra um dado essencial: não foi o presidente interino quem escolheu Joana Rosa. Foi a Direcção Nacional.E a DN não está em gestão.É o órgão deliberativo máximo do partido entre Convenções e mantém as suas competências enquanto decorre a disputa entre Paulo Veiga, Herménio Fernandes e Luís Filipe Tavares.
Há até precedente: em 2021 foi também a Direção Nacional que aprovou o apoio do MpD à candidatura presidencial de Carlos Veiga.Portanto, por aqui, a polémica perde alguma gasolina.
Estatutariamente, a DN pode decidir.
Mas podia esperar?
Aqui começa a política.Dentro de poucos dias, os militantes escolherão um novo presidente.E esse presidente receberá um partido que já decidiu apoiar Joana Rosa.
Pode concordar.Pode até considerar Joana a melhor candidata.
Mas não terá conduzido, enquanto líder eleito, a escolha que agora terá de defender perante o país.
E isso levanta uma questão de oportunidade política: num partido em plena transição de liderança, não faria sentido deixar uma decisão desta dimensão para quem receberá dos militantes legitimidade para definir a nova estratégia?
O calendário presidencial aperta e o MpD também não podia simplesmente fechar para eleições internas.Mas entre poder decidir e ser politicamente aconselhável decidir agora existe alguma distância.
Uma prenda à espera do vencedor
Há ainda uma ironia.Paulo Veiga, Herménio Fernandes e Luís Filipe Tavares disputam a liderança falando de renovação, unidade e de um novo ciclo para o MpD.
Um deles vencerá.Receberá as chaves da sede, a liderança e o direito de definir o rumo do partido.
Só que uma das primeiras curvas já foi feita por quem lá estava antes.
A escolha de Joana Rosa parece, à luz dos Estatutos, legítima.
O que se pode discutir é a oportunidade.Porque o vencedor das internas encontrará uma fotografia de Joana já pendurada na parede.
Pode gostar.Pode até ter escolhido exatamente a mesma fotografia.
Só não poderá dizer que foi ele quem a pendurou.