
Há frases que um Presidente da República pode escrever e seguir viagem.
E há outras que não podem simplesmente ficar penduradas no Facebook à espera de gostos, comentários e partilhas.
José Maria Neves escreveu que não cederá a «chantagens» nem a «ameaças». A frase pretende transmitir força. Acabou, porém, por deixar uma pergunta muito mais importante do que a proclamação de coragem:
Quem está a chantagear o Presidente da República de Cabo Verde?
Porque, até agora, ninguém sabe.
Não sabemos quem chantageou. Não sabemos com quê. Não sabemos o que pretendia obter. Não sabemos quando aconteceu. E, sobretudo, não sabemos se o Presidente utilizou a palavra chantagem como figura de estilo ou como descrição de alguma coisa realmente ocorrida.
E há uma pequena diferença entre as duas coisas.Uma coisa é alguém dizer ao Presidente: “Discordo de si, vou criticá-lo até Novembro.”Isso chama-se política.
Outra coisa é alguém dizer: “Ou faz isto, ou acontece aquilo.”Isso já merece outras perguntas.
O problema da declaração presidencial é precisamente este: tem acusação, mas não tem acusado; tem denúncia, mas não tem facto; tem crime no vocabulário, mas deixa o cidadão sem saber se houve crime na realidade.
E num Estado de Direito isso não é um pormenor.
Se alguém ameaçou ou tentou constranger o Chefe de Estado no exercício das suas funções, não estamos perante uma simples briga de Facebook. Estamos perante matéria suficientemente grave para ser esclarecida pelas instituições.
Até porque José Maria Neves não estava a falar da dignidade de José Maria Neves enquanto cidadão privado. Invocou expressamente a «dignidade do cargo de Presidente da República».
Ora, quando entra o cargo, entra a República.
E aqui chegamos à velha casa.
Primeiro passa alguém e atira uma pedra. Parte uma janela.
Ninguém reage.
No dia seguinte passa outro. Olha para a janela partida e percebe que não aconteceu nada ao primeiro. Atira outra pedra.
Também nada.
Aparece um terceiro.
Depois deixam de atirar pedras e começam a entrar pela janela.
Quando os donos da casa finalmente descobrem que a casa foi ocupada, perguntam indignados:
— Como é que isto aconteceu?
Aconteceu quando a primeira pedra ficou sem resposta.
É por isso que a declaração do Presidente não deveria terminar em “não cederei”.
Deveria começar aí.
Não cederá a quem?
A que chantagem?
A que ameaça?
Para conseguir o quê?
E, sendo verdadeiramente uma chantagem ou ameaça, que fizeram as instituições da República perante isso?
Porque existe ainda uma segunda hipótese, igualmente desconfortável: a palavra “chantagem” ter sido usada apenas para qualificar pressões, críticas ou movimentações políticas.Nesse caso convinha dizê-lo também.
Um Presidente não deve transformar adversários políticos em potenciais chantagistas através de uma frase suficientemente vaga para que cada cabo-verdiano possa escolher o suspeito da sua preferência.
A serenidade que José Maria Neves reclama para os outros também exige precisão nas palavras do próprio Chefe de Estado.Sobretudo numa Presidência.Sobretudo num Estado de Direito.
E sobretudo quando alguém acaba de nos informar que há pessoas a atirar pedras às janelas da República.
A pergunta já não pode ser se o Presidente cedeu.
A pergunta é muito mais simples:
Quem atirou a primeira pedra?