
A quatro meses das presidenciais de Novembro, o silêncio continua a ser o candidato mais ativo na área política do PAICV. José Maria Neves pondera o segundo mandato, Francisco Carvalho não garante o apoio do partido e Aristides Lima, lançado para uma corrida em que nunca entrou, tratou de retirar o seu nome.
Por: Eduíno Santos
Em política, quando uma pergunta simples recebe muitas respostas complicadas, normalmente o problema não está na pergunta.
José Maria Neves vai recandidatar-se à Presidência da República?
Ainda não sabemos.
Se avançar, terá o apoio do PAICV?
Também não sabemos.
E é precisamente este duplo silêncio que está a alimentar uma corrida presidencial onde, na área política do PAICV, já se falou mais de candidatos do que se apresentaram candidatos.
José Maria Neves continua a dizer que pondera a decisão e que a anunciará dentro dos prazos. A candidatura já é um segredo de Polichinelo: ninguém confirma oficialmente, mas nos corredores da política já quase ninguém pergunta se avança — pergunta apenas quando será anunciada.
Convém, portanto, separar o facto do desejo e o rumor da notícia: não existe qualquer indicação pública de que tenha desistido da recandidatura.
Mas o calendário anda. E José Maria Neves continua a ponderar.
Pode ser prudência institucional. Pode querer encurtar a exposição eleitoral. Pode estar a observar o posicionamento do PAICV.
Ou pode simplesmente ter descoberto uma das situações mais confortáveis da política: enquanto não diz nada, toda a gente fala dele.
O PAICV também descobriu as virtudes da ponderação
Francisco Carvalho já teve oportunidade de resolver metade do mistério.
Bastaria dizer:
“Se José Maria Neves for candidato, terá o apoio do PAICV.”
Não disse. O assunto, explicou, está a ser analisado internamente.
Seria uma resposta perfeitamente banal se estivéssemos a falar de escolher um candidato novo. Não estamos. Falamos do atual Presidente da República, eleito em 2021 com o apoio do PAICV, partido que José Maria Neves liderou durante anos e levou várias vezes ao Governo.
É por isso que o silêncio tem peso político. Não prova que Francisco Carvalho queira outro candidato. Não demonstra uma rutura entre o PAICV e José Maria Neves. Mas também não permite fingir que está tudo decidido.
O facto é simples: o PAICV ainda não anunciou formalmente o apoio à recandidatura de José Maria Neves. E este também , ainda , não anunciou a candidatura .
Tudo o resto, por enquanto, pertence ao fascinante departamento cabo-verdiano da especulação política.
E então apareceu Aristides Lima
Como a política tem horror ao vazio, alguém tratou de preenchê-lo. O nome de Aristides Lima começou a circular. E não era um nome qualquer.
Antigo presidente da Assembleia Nacional. Antigo dirigente do PAICV. Candidato presidencial em 2011. Uma figura com história suficiente dentro do partido para transformar um simples rumor numa conversa séria. O próprio Aristides confirmou ter recebido telefonemas de pessoas incentivando-o a avançar.
Portanto, alguém andava efetivamente à procura de candidato. O que ainda não sabemos é para quê — e para quem.
Para testar dentro do PAICV uma alternativa a José Maria Neves?
Para medir a resistência ao eventual apoio do partido ao atual Presidente?
Para alimentar a imagem de uma divisão entre Francisco Carvalho e José Maria Neves?
Ou simplesmente porque há apoiantes que têm o curioso hábito de lançar candidaturas antes de consultar os candidatos?
Sem provas, o Notícias do Norte não escolhe uma dessas hipóteses.
Mas regista todas. Porque, em política, às vezes o nome lançado interessa menos do que quem tinha interesse em lançá-lo.
Aristides estragou a experiência
O problema para quem pretendia testar a temperatura política com o seu nome é que Aristides Lima resolveu desligar o termómetro. Disse que não é candidato.
E foi mais longe. Referiu existir na sua área política uma personalidade que já cumpriu um mandato presidencial e que “muito provavelmente” procurará um segundo.
Não disse José Maria Neves. Também não precisava. Não era necessário levar fotografia, número de BI e morada no Plateau. Aristides acrescentou ainda que não avançaria por respeito ao PAICV.
E, com isso, Aristides Lima fez algo politicamente relevante: em vez de fragilizar José Maria Neves, acabou por reforçar a perceção de que o catual Presidente continua a ser o candidato natural daquele espaço político.
E houve certamente quem ficasse desiludido. Para os que acreditavam que a vingança é um prato que se come frio, quinze anos de frigorífico pareciam tempo suficiente.
Em 2011, Aristides Lima viu o PAICV fechar-lhe a porta do apoio presidencial e escolher Manuel Inocêncio Sousa, então número dois de José Maria Neves. Lima avançou na mesma e a fratura ficou para a história das guerras internas do partido.
Quinze anos depois, tinha agora a oportunidade perfeita para servir o prato. E, com isso, Aristides Lima fez algo politicamente relevante: em vez de fragilizar José Maria Neves, acabou por reforçar a perceção de que o atual Presidente continua a ser o candidato natural daquele espaço político.
E houve certamente quem ficasse desiludido. Para os que acreditavam que a vingança é um prato que se come frio, quinze anos de frigorífico pareciam tempo suficiente.
Em 2011, Aristides Lima viu o PAICV, liderado por JMN; fechar-lhe a porta do apoio presidencial e escolher Manuel Inocêncio Sousa, então número dois de José Maria Neves. Lima avançou na mesma e a fratura ficou para a história das guerras internas do partido.
Quinze anos depois, tinha agora a oportunidade perfeita para servir o prato.
Não serviu.Aristides preferiu deixar a vingança no frigorífico.
E, em vez de aproveitar a indefinição para devolver a José Maria Neves o incómodo político de 2011, praticamente apontou para ele como o candidato natural do mesmo espaço político.
Na política cabo-verdiana, onde as contas antigas raramente prescrevem, Lima surpreendeu precisamente porque decidiu não cobrar a sua.
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O fantasma de 2011 ficou onde estava
Aristides sabe melhor do que ninguém quanto pode custar uma divisão presidencial dentro da mesma família política.
Em 2011, o PAICV apoiou Manuel Inocêncio Sousa. Aristides Lima avançou também para as presidenciais, apoiado por sectores do mesmo espaço político.
A fratura existiu. E deixou memória.
Quinze anos depois, Aristides parece não ter qualquer vontade de protagonizar a sequela. Em Cabo Verde, os partidos gostam muito de dizer que aprenderam com a História. Aristides, pelo menos desta vez, parece ter lido o capítulo anterior.
O verdadeiro silêncio está no PAICV
E chegamos ao ponto politicamente mais interessante.
Talvez a pergunta já nem seja por que José Maria Neves ainda não anunciou a candidatura. Um Presidente em funções pode ter razões institucionais e estratégicas para escolher o momento. A pergunta mais incómoda começa a ser outra:
por que razão o PAICV ainda não disse claramente se apoiará José Maria Neves caso ele avance?
Francisco Carvalho lidera hoje outro PAICV.
Ganhou as legislativas de Maio, tornou-se primeiro-ministro e controla uma maioria parlamentar. José Maria Neves, por seu lado, é uma das figuras mais pesadas da história recente do partido, mas ocupa um cargo que constitucionalmente deve exercer acima das fidelidades partidárias.
Os dois poderes convivem. Mas não são o mesmo poder. E talvez seja precisamente aí que esteja a verdadeira história destas presidenciais.
Por enquanto, há um candidato chamado silêncio
Os factos continuam surpreendentemente simples.
José Maria Neves não anunciou a recandidatura. O PAICV não anunciou que o apoiará. Aristides Lima já anunciou que não será candidato.
Todo o resto são movimentações, telefonemas, interpretações e balões lançados para perceber de onde sopra o vento.
No fim de tanta movimentação, a família política do PAICV continua diante de duas perguntas que ninguém conseguiu eliminar:
José Maria Neves quer ficar mais cinco anos no Plateau?
E, se quiser,
Francisco Carvalho vai segurar-lhe a escada?
Porque nas presidenciais de Novembro talvez não baste saber quem quer subir.
Também interessa saber quem estará cá em baixo a segurar a escada — e quem preferia vê-la encostada noutra parede.