
A saída de Pedro “Bubista” Brito obriga a Federação Cabo-verdiana de Futebol a tomar uma decisão que pode marcar a próxima década. Voltar ao modelo do selecionador estrangeiro ou confiar novamente na “prata da casa” que conduziu Cabo Verde ao melhor momento da sua história? Nas redes sociais já começaram as apostas. Mas a pergunta talvez seja outra: existe, hoje, um novo Bubista?
Durante muitos anos, em Cabo Verde, bastava perder dois jogos para surgir a velha receita.
“É preciso um treinador estrangeiro.”
Como se o passaporte fosse, por si só, uma garantia de competência.
Depois apareceu Lúcio Antunes.Mais tarde, Bubista. E a velha teoria começou a perder força.
Porque foram precisamente dois treinadores formados em Cabo Verde que conduziram a seleção às maiores páginas da história do futebol nacional.
Lúcio Antunes levou Cabo Verde, pela primeira vez, à Taça das Nações Africanas.
Bubista fez ainda mais.
Levou os Tubarões Azuis ao Mundial. E não foi apenas ao Mundial.
Levou-os a discutir jogos com Espanha, Uruguai e Argentina, conquistando o respeito do futebol internacional.
Agora, com a saída de Bubista para Marrocos, a Federação enfrenta uma decisão muito maior do que a escolha de um nome.
Tem de decidir uma filosofia.
Voltar ao treinador estrangeiro?
A hipótese existe.
E, curiosamente, nunca foi tão possível.
O Mundial valorizou a marca “Cabo Verde”.
Valorizou a Federação. Valorizou os jogadores.
Valorizou também a capacidade financeira da própria FCF, que hoje dispõe de receitas e prestígio muito superiores aos de há poucos anos.
Isso abre portas. Treinadores que antes nem atenderiam um telefonema da Federação poderão agora olhar para Cabo Verde de forma diferente.
Mas será esse o caminho?
Ou insistir na prata da casa?
Há um argumento difícil de contrariar.
Os dois maiores sucessos da história da seleção nacional tiveram assinatura cabo-verdiana. Primeiro Lúcio Antunes. Depois Bubista.
Ambos conheciam o futebol local. Conheciam a diáspora. Conheciam a cultura do balneário. Conheciam o crioulo. Conheciam o peso simbólico da camisola azul.
Talvez não seja coincidência. Talvez seja identidade.
Existe um sucessor preparado?
É aqui que começa o verdadeiro debate.
Nas redes sociais cabo-verdianas, uma ideia repete-se com frequência: dar continuidade ao trabalho realizado, evitando uma rutura completa com a identidade construída por Bubista. Entre os nomes mais mencionados pelos adeptos surgem Humberto Bettencourt, adjunto da atual equipa técnica e profundo conhecedor do grupo, e Rui Alberto Leite, um dos treinadores mais titulados do futebol cabo-verdiano. (As referências refletem tendências observadas em debates públicos e não constituem qualquer processo oficial de escolha.)
Humberto Bettencourt apresenta uma vantagem evidente.
Conhece o grupo. Conhece os métodos. Conhece a filosofia. Seria a continuidade quase natural do ciclo Bubista.
Rui Alberto Leite representa outra leitura. É um treinador respeitado.
Acumulou títulos. Construiu uma carreira sólida no futebol nacional.
Nunca orientou a seleção principal. Mas também é verdade que Bubista nunca tinha orientado uma seleção quando assumiu o cargo.
A experiência internacional também se conquista. Não nasce com o treinador.
O perigo da comparação
Quem vier a seguir terá um problema. Não será comparado com o Bubista de 2020.
Será comparado com o Bubista de 2026. Com o homem que transformou Cabo Verde numa das histórias mais bonitas do Mundial.
É uma herança pesada. Talvez demasiado pesada.
A Federação também está a ser avaliada
Há outra questão que importa colocar.
Durante os anos de Bubista, a Federação preparou apenas uma equipa?
Ou preparou também a geração seguinte de treinadores?
Porque as grandes organizações não vivem de homens providenciais.
Vivem da capacidade de criar sucessores.
Se hoje apenas existe Bubista, então há um problema.
Se hoje existem vários treinadores capazes de assumir a seleção, então Bubista deixa também um legado invisível.
O da formação.
A tentação do nome estrangeiro
Será sempre sedutora. Um treinador europeu.
Um currículo internacional. Uma conferência de imprensa cheia.
Mas o futebol cabo-verdiano já aprendeu uma lição importante.
O sucesso não depende do sotaque. Depende da ideia.
Lúcio Antunes provou-o. Bubista confirmou-o.
A pergunta que vale milhões
Talvez a verdadeira pergunta não seja:
Quem vai substituir Bubista?
Mas sim:
A Federação acredita que Cabo Verde continua capaz de produzir treinadores para o mais alto nível?
Porque, curiosamente, o mercado internacional já respondeu.
Levou Bubista.
E pagou por ele um contrato que poderá atingir valores nunca vistos para um treinador ligado ao futebol cabo-verdiano.
Seria uma estranha ironia se, depois de o mundo descobrir o valor dos treinadores cabo-verdianos, fossem precisamente os cabo-verdianos os primeiros a deixar de acreditar neles. A decisão pertence agora à Federação. Não será apenas a escolha de um treinador. Será a escolha da identidade que Cabo Verde quer levar para o CAN.
E, mais importante ainda, para o Mundial de 2030.
Eduino Santos