Para o Ministério Público, é suspeito de dezenas de crimes. Para o MpD, tornou-se agora um risco para a economia. Francisco Carvalho entrou para um clube raro: o dos governantes que, em poucas semanas, conseguem preocupar ao mesmo tempo juízes, oposição e… o Fundo Monetário Internacional.

Há uma curiosa unanimidade a instalar-se em Cabo Verde. Não sobre a culpa de Francisco Carvalho. Essa pertence aos tribunais. Mas sobre uma palavra : Perigoso.
O Ministério Público considera existirem indícios suficientemente graves para acusar o Primeiro-Ministro de crimes como corrupção, peculato, abuso de poder e atentado contra o Estado de Direito.
O MpD acaba de acrescentar outro qualificativo.Francisco Carvalho, diz a oposição, é agora “perigoso para a economia”.
A este ritmo, qualquer dia faltará apenas a meteorologia avisar que o Primeiro-Ministro representa um risco para as chuvas. A ver vamos.
Do arguido ao risco económico
A oposição encontrou um novo ângulo de ataque. Já não centra o debate apenas na acusação criminal. Agora diz que Francisco Carvalho colocou em causa a credibilidade financeira de Cabo Verde ao afirmar que o anterior Governo escondeu contas públicas e enganou o Fundo Monetário Internacional. O problema é que o próprio FMI respondeu.
E respondeu com a frieza habitual das instituições internacionais. Disse simplesmente que não analisou a execução orçamental, não recebeu os dados necessários para o fazer e, por isso, não produziu as conclusões que o Primeiro-Ministro lhe atribuiu.
É aqui que a política entra num terreno perigoso. Porque uma coisa é acusar um adversário político. Outra é colocar palavras na boca de uma instituição cuja principal moeda é precisamente a credibilidade.
Na política também há tiro ao alvo
Francisco Carvalho disparou. O FMI não confirmou. O MpD aproveitou o ricochete.
E agora exige um pedido público de desculpas. É um clássico da política. Quem dispara primeiro ganha a manchete. Quem responde dias depois tenta recuperar a narrativa. Mas há uma diferença.
Quando os protagonistas são partidos, a polémica morre normalmente na próxima conferência de imprensa.
Quando o nome invocado é o do Fundo Monetário Internacional, a história ganha outra dimensão. Porque já não se discute apenas política interna. Discute-se a reputação financeira de um país.
O perigo das palavras
Há um velho ensinamento diplomático. Os mercados leem comunicados. Os investidores leem títulos. As agências de rating leem declarações.
Uma frase mal medida por um chefe de Governo pode valer muito mais do que um erro técnico de centenas de páginas. É isso que o MpD procura explorar.
Ao citar o exemplo do Senegal, tenta mostrar que declarações sobre contas públicas podem ter consequências internacionais. É um argumento legítimo.
Ainda que também carregado de dramatização política. Porque Senegal não é Cabo Verde. Nem os contextos são comparáveis.
Mas o Governo também tem um problema
O Executivo não pode ignorar o essencial. Se afirma que o FMI confirmou determinadas conclusões, e o FMI responde oficialmente que não fez essa avaliação, a questão deixa de ser partidária.
Passa a ser factual. E os factos têm um defeito terrível. Resistem às conferências de imprensa.
A ironia do momento
Há poucos dias discutíamos se Francisco Carvalho tinha condições éticas para governar.
Agora discute-se se tem condições para falar em nome do FMI. É curioso como a política consegue mudar de assunto sem mudar verdadeiramente de problema.
O centro continua a ser a confiança. Confiança na Justiça. Confiança no Governo.
Confiança nas contas públicas. Confiança nas instituições.
O verdadeiro perigo
Talvez o maior perigo não seja Francisco Carvalho. Nem o MpD. Nem sequer esta polémica. O verdadeiro perigo é outro. É transformar parceiros internacionais em armas de combate político interno.
Porque o FMI não é militante do PAICV. Também não é dirigente do MpD.
O FMI é credor. E os credores, ao contrário dos partidos, não votam: Avaliam.
E quando avaliam mal, quem paga não é o Governo anterior nem o Governo atual.
É o país inteiro.
Por isso, antes de usar o nome de instituições internacionais como munição política, talvez valha a pena recordar uma regra simples.
Na política, as palavras passam. Nos mercados, ficam registadas.
E, às vezes, custam muito mais do que uma derrota parlamentar.
NN