A política vive de narrativas. As instituições vivem de factos. E quando as duas deixam de coincidir, quem paga é a credibilidade do Estado.

Na política há uma regra antiga. Pode discutir-se quase tudo. Pode interpretar-se quase tudo. Mas há uma fronteira que raramente compensa atravessar: Falar em nome de uma instituição internacional. Foi precisamente isso que aconteceu esta semana.
O Primeiro-Ministro, Francisco Carvalho, afirmou que a recente missão técnica do Fundo Monetário Internacional permitiu identificar uma diferença de cerca de oito mil milhões de escudos entre o Orçamento do Estado aprovado para 2026 e a execução orçamental projetada. Foi mais longe. Acusou o anterior Governo do MpD de ter “ludibriado” o FMI e de esconder as contas públicas.
A resposta do Fundo Monetário Internacional foi curta. Mas politicamente devastadora.
O FMI diz: nós não fizemos essa avaliação
Segundo um porta-voz oficial da instituição, ouvido pela agência Lusa, a equipa que esteve em Cabo Verde entre 21 e 24 de julho realizou “uma visita técnica de apresentação ao novo Governo”, e “não uma missão de revisão do programa económico”.
Mais importante ainda.
O próprio FMI afirma que “não recebeu dados sobre a execução orçamental” e, por isso, ‘não estava em condições de avaliar a execução do Orçamento de 2026 nem a necessidade de um Orçamento Retificativo’.
A frase é inequívoca:
“O FMI não avaliou essas questões durante a visita.” Ou seja, a instituição desmente que tenha produzido a avaliação que o Primeiro-Ministro lhe atribuiu. Uma diferença que não é semântica.
Importa distinguir duas questões. A primeira é saber se existe, ou não, um desvio orçamental. Essa discussão pertence ao Governo, ao Parlamento, ao Tribunal de Contas e, naturalmente, ao debate político.
A segunda questão é completamente diferente. É saber se o FMI confirmou essa leitura. E aqui a resposta oficial da instituição é negativa: Não a confirmou.
Porque diz que “não analisou a execução orçamental”. São planos distintos. Misturá-los cria um problema de credibilidade.
O Notícias do Norte tem defendido, desde o início desta legislatura, uma regra simples. Os governos podem e devem criticar os governos anteriores. É parte da democracia. Mas quando se invocam instituições internacionais como testemunhas dessas críticas, o rigor deixa de ser apenas uma exigência jornalística.
Passa a ser uma exigência diplomática.
O FMI é um dos principais parceiros financeiros de Cabo Verde. As suas avaliações influenciam mercados, investidores, parceiros internacionais e agências de notação financeira. Por isso, atribuir-lhe conclusões que o próprio diz não ter produzido não é uma questão menor.
Curiosamente… o próprio FMI elogiava as contas há poucos meses. Há outro elemento que merece memória.
Em maio de 2026, na oitava revisão do programa económico, o próprio FMI afirmava que “todos os critérios quantitativos tinham sido cumpridos”, destacava um “saldo orçamental primário acima das metas”, crescimento económico robusto e reservas internacionais em níveis históricos.
Naturalmente, essa avaliação dizia respeito ao período analisado nessa missão e não impede que a situação possa ter evoluído entretanto.
Mas demonstra que existe uma diferença importante entre uma missão formal de avaliação, baseada em dados e critérios quantitativos, e uma visita técnica de apresentação ao novo executivo.
Foi precisamente essa diferença que o FMI fez questão de sublinhar agora.
Há uma tentação comum quando muda um Governo. Explicar todas as dificuldades encontradas através da herança recebida. É uma narrativa conhecida em qualquer democracia. Por vezes corresponde à realidade. Outras vezes exagera-a. É precisamente por isso que existem instituições independentes.
Tribunais. Banco Central. Tribunal de Contas. E também o Fundo Monetário Internacional.
Essas instituições existem para que os números falem antes das conveniências políticas. Agora a palavra pertence aos documentos. A resposta do FMI não significa automaticamente que o Governo esteja errado quanto à existência de um desvio orçamental.
Também não significa que o MpD esteja certo. Significa apenas uma coisa. O FMI não confirmou aquilo que o Primeiro-Ministro lhe atribuiu.
E essa distinção é demasiado importante para ser ignorada.
Num momento em que Cabo Verde procura preservar a confiança dos seus parceiros internacionais, a credibilidade das instituições públicas vale quase tanto como o equilíbrio das próprias contas.
Porque os défices podem corrigir-se. Mas a confiança, quando se perde, demora muito mais tempo a regressar.
Eduino Santos