Quando o FMI responde ao Primeiro-Ministro

1/08/2026 14:07 - Modificado em 1/08/2026 14:07

A política vive de narrativas. As instituições vivem de factos. E quando as duas deixam de coincidir, quem paga é a credibilidade do Estado.

@ REUTERS/Yuri Gripas

Na política há uma regra antiga. Pode discutir-se quase tudo. Pode interpretar-se quase tudo. Mas há uma fronteira que raramente compensa atravessar:  Falar em nome de uma instituição internacional. Foi precisamente isso que aconteceu esta semana.

O Primeiro-Ministro, Francisco Carvalho, afirmou que a recente missão técnica do Fundo Monetário Internacional permitiu identificar uma diferença de cerca de oito mil milhões de escudos entre o Orçamento do Estado aprovado para 2026 e a execução orçamental projetada. Foi mais longe. Acusou o anterior Governo do MpD de ter “ludibriado” o FMI e de esconder as contas públicas.

A resposta do Fundo Monetário Internacional foi curta. Mas politicamente devastadora.

O FMI diz: nós não fizemos essa avaliação

Segundo um porta-voz oficial da instituição, ouvido pela agência Lusa, a equipa que esteve em Cabo Verde entre 21 e 24 de julho realizou “uma visita técnica de apresentação ao novo Governo”, e “não uma missão de revisão do programa económico”.

Mais importante ainda.

O próprio FMI afirma que “não recebeu dados sobre a execução orçamental” e, por isso, ‘não estava em condições de avaliar a execução do Orçamento de 2026 nem a necessidade de um Orçamento Retificativo’.

A frase é inequívoca:

“O FMI não avaliou essas questões durante a visita.” Ou seja, a instituição desmente que tenha produzido a avaliação que o Primeiro-Ministro lhe atribuiu. Uma diferença que não é semântica.

Importa distinguir duas questões. A primeira é saber se existe, ou não, um desvio orçamental. Essa discussão pertence ao Governo, ao Parlamento, ao Tribunal de Contas e, naturalmente, ao debate político.

A segunda questão é completamente diferente. É saber se o FMI confirmou essa leitura. E aqui a resposta oficial da instituição é negativa: Não a confirmou.

Porque diz que “não analisou a execução orçamental”. São planos distintos. Misturá-los cria um problema de credibilidade.

O precedente preocupa

O Notícias do Norte tem defendido, desde o início desta legislatura, uma regra simples. Os governos podem e devem criticar os governos anteriores. É parte da democracia. Mas quando se invocam instituições internacionais como testemunhas dessas críticas, o rigor deixa de ser apenas uma exigência jornalística.

Passa a ser uma exigência diplomática.

O FMI é um dos principais parceiros financeiros de Cabo Verde. As suas avaliações influenciam mercados, investidores, parceiros internacionais e agências de notação financeira. Por isso, atribuir-lhe conclusões que o próprio diz não ter produzido não é uma questão menor.

 Curiosamente… o próprio FMI elogiava as contas há poucos meses. Há outro elemento que merece memória.

Em maio de 2026, na oitava revisão do programa económico, o próprio FMI afirmava que “todos os critérios quantitativos tinham sido cumpridos”, destacava um “saldo orçamental primário acima das metas”, crescimento económico robusto e reservas internacionais em níveis históricos. 

Naturalmente, essa avaliação dizia respeito ao período analisado nessa missão e não impede que a situação possa ter evoluído entretanto.

Mas demonstra que existe uma diferença importante entre uma missão formal de avaliação, baseada em dados e critérios quantitativos, e uma visita técnica de apresentação ao novo executivo.

Foi precisamente essa diferença que o FMI fez questão de sublinhar agora.

 O risco da política falar mais depressa do que os factos

Há uma tentação comum quando muda um Governo. Explicar todas as dificuldades encontradas através da herança recebida. É uma narrativa conhecida em qualquer democracia. Por vezes corresponde à realidade. Outras vezes exagera-a. É precisamente por isso que existem instituições independentes.

Tribunais. Banco Central. Tribunal de Contas. E também o Fundo Monetário Internacional.

Essas instituições existem para que os números falem antes das conveniências políticas. Agora a palavra pertence aos documentos. A resposta do FMI não significa automaticamente que o Governo esteja errado quanto à existência de um desvio orçamental.

Também não significa que o MpD esteja certo. Significa apenas uma coisa. O FMI não confirmou aquilo que o Primeiro-Ministro lhe atribuiu.

E essa distinção é demasiado importante para ser ignorada.

Num momento em que Cabo Verde procura preservar a confiança dos seus parceiros internacionais, a credibilidade das instituições públicas vale quase tanto como o equilíbrio das próprias contas.

Porque os défices podem corrigir-se. Mas a confiança, quando se perde, demora muito mais tempo a regressar.

Eduino Santos 

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