
Assita Video RFI no Facebook – Claúdio Semedo Borges
Eduino Santos
Durante décadas, Cabo Verde foi apresentado ao mundo por uma voz. A de Cesária Évora.
Depois vieram as praias, o turismo e, mais recentemente, o futebol. Mas o Mundial fez algo que nenhuma campanha de promoção turística conseguiu. Colocou Cabo Verde no mapa da curiosidade mundial.
Milhões de pessoas descobriram um pequeno país africano capaz de competir de igual para igual com as maiores seleções do planeta. E quando o mundo começa a olhar para um país, não descobre apenas os seus futebolistas.
Descobre os seus cientistas.
Os seus médicos.
Os seus engenheiros.
Os seus empresários.
Os seus artistas.
E também os seus chefs.
Foi isso que aconteceu esta semana.
A RFI levou os seus ouvintes até à cozinha do Hotel Prince de Galles, em Paris, onde trabalha **Cláudio Semedo Borges**, um cabo-verdiano que construiu a carreira em algumas das cozinhas mais prestigiadas de França até assumir a chefia gastronómica de um dos hotéis de luxo da capital francesa.
A reportagem não fala apenas de gastronomia. Fala de excelência. Fala de disciplina. Fala de um cabo-verdiano que chegou ao topo num dos mercados mais exigentes do mundo. Mas esta não é apenas a história de Cláudio Semedo Borges. É a história de uma diáspora que Cabo Verde continua a conhecer mal.
Seria um erro pensar que Cláudio Semedo Borges é uma exceção. Não é.
É apenas um dos muitos cabo-verdianos que ocupam posições de relevo em hospitais, universidades, laboratórios, empresas tecnológicas, instituições financeiras, organizações internacionais e grandes grupos privados espalhados pelos cinco continentes.
Sempre estiveram lá. A diferença é que agora o mundo olha para Cabo Verde com outros olhos. O Mundial de Futebol abriu uma montra internacional que vai muito além do desporto.
Criou curiosidade. E a curiosidade leva inevitavelmente à descoberta de outros talentos.
O paradoxo cabo-verdiano
Existe, porém, uma ironia que o país deveria discutir. Celebramos com orgulho os nossos talentos quando são distinguidos em Paris, Londres, Boston ou Toronto.
Mas quantos desses profissionais conhecemos verdadeiramente?
Quantos fazem parte de uma estratégia nacional?
Quantos foram identificados, contactados ou convidados a contribuir para o desenvolvimento do país?
A verdade é incómoda.
Cabo Verde nunca soube aproveitar plenamente o enorme capital humano da sua diáspora.
Conhecemos as remessas. Conhecemos os emigrantes. Mas continuamos sem conhecer, de forma organizada, a dimensão da nossa elite científica, tecnológica, empresarial e cultural.
A história de Cláudio Semedo Borges levanta uma questão que talvez incomode mais do que devia. Qual é a nacionalidade do chef executivo do principal restaurante da maior cadeia hoteleira a operar em Cabo Verde?
A pergunta não pretende diminuir profissionais estrangeiros, cujo contributo é muitas vezes decisivo para o desenvolvimento do turismo nacional.
Pretende apenas provocar uma reflexão.
Se um cabo-verdiano reúne competência para liderar a cozinha de um hotel de luxo em Paris, porque continua a ser tão raro vê-lo ocupar funções equivalentes nos maiores empreendimentos turísticos do seu próprio país?
Será falta de quadros? Ou falta de uma aposta deliberada na valorização do talento nacional?
Durante semanas falámos dos golos, das vitórias e da extraordinária campanha da seleção nacional. Mas talvez o maior legado do Mundial seja outro. Ter mostrado ao mundo que Cabo Verde produz talento muito acima da dimensão do seu território.
Agora cabe ao país transformar essa visibilidade numa estratégia. Identificar os melhores. Mapear as competências da diáspora. Criar pontes entre quem triunfa no estrangeiro e quem precisa desse conhecimento em Cabo Verde. Porque o desenvolvimento de um país não se faz apenas com estradas, hotéis ou aeroportos.
Faz-se, sobretudo, com pessoas.
Cláudio Semedo Borges é apenas mais um nome.
Amanhã poderá surgir um investigador, uma engenheira aeroespacial, um cirurgião, um programador ou um empresário cabo-verdiano a merecer destaque nos maiores órgãos de comunicação do mundo. O desafio é saber se continuaremos a descobrir esses talentos através da imprensa estrangeira.
Ou se, finalmente, Cabo Verde decidirá olhar para a sua diáspora como aquilo que ela verdadeiramente é.