O Ministério Público acusa. O MpD pede a saída. Francisco Carvalho responde que o país espera é que ele governe. Afinal, onde termina a presunção de inocência e começa a responsabilidade política?

Por: Eduino Santos
Há momentos em que a democracia obriga a fazer perguntas incómodas.
Esta é uma delas.
Pode um Primeiro-Ministro continuar a governar quando o Ministério Público lhe imputa mais de uma centena de crimes?
A resposta não é tão simples como o debate político faz parecer.
O Ministério Público diz que sim, existem indícios suficientes para levar Francisco Carvalho a julgamento.
O MpD responde que isso basta para tornar a sua permanência politicamente insustentável.
Francisco Carvalho contrapõe que quem o colocou em funções foi o povo e que o seu dever é governar.
As três posições têm uma lógica.
Mas nenhuma, por si só, resolve o problema.
## A justiça fala uma linguagem. A política fala outra.
O Ministério Público não governa.
Acusa..É essa a sua função constitucional.
A acusação não significa culpa.Significa que, na avaliação do Ministério Público, existem indícios que justificam levar o caso a tribunal.
É uma etapa importante. Mas continua a ser apenas uma etapa.
O tribunal poderá confirmar essa leitura.
Ou poderá rejeitá-la..É precisamente para isso que existem julgamentos.
O MpD introduz outra dimensão
O argumento do MpD não é jurídico. É ético.
O partido não afirma que Francisco Carvalho é culpado. Afirma que um Primeiro-Ministro acusado de crimes tão graves perde autoridade moral para continuar a liderar o Governo.
É um argumento que existe em muitas democracias.
Mas também levanta outra pergunta.
Basta uma acusação para afastar um governante?
Se a resposta for sempre “sim”, então qualquer acusação do Ministério Público poderá produzir consequências políticas imediatas antes de qualquer apreciação judicial.
É um precedente poderoso.E potencialmente perigoso.
## Francisco Carvalho responde com a legitimidade das urnas
O Primeiro-Ministro escolheu outro terreno.
Recusou discutir o mérito da acusação.
Preferiu recordar que foi eleito democraticamente e que a prioridade é executar o programa sufragado pelos cabo-verdianos.
Também este argumento merece reflexão.
Porque a legitimidade eleitoral existe.
Mas não é absoluta..Os votos conferem legitimidade para governar. Não suspendem a responsabilidade política.
Nem colocam um governante acima do escrutínio.
## O verdadeiro problema chama-se confiança
Talvez a pergunta esteja mal formulada.
A questão não é apenas saber se Francisco Carvalho **pode** continuar.
Do ponto de vista constitucional, enquanto não existir uma decisão judicial ou outra circunstância prevista na lei, pode.
A questão é outra.
Consegue governar?
Governar exige autoridade. Confiança. Capacidade de mobilizar instituições.Capacidade de representar o Estado. Quando todas as conferências de imprensa começam com perguntas sobre um processo criminal, a agenda política altera-se inevitavelmente.
É essa a dificuldade.
Também existe o risco contrário
Há, porém, um perigo que não pode ser ignorado.
Se amanhã qualquer acusação bastar para afastar um Primeiro-Ministro, estaremos a criar um mecanismo que pode transformar o calendário judicial num factor de instabilidade política.
Numa democracia madura, nem a política pode controlar a justiça. Nem a justiça pode, involuntariamente, tornar-se o principal mecanismo de substituição de governos. É um equilíbrio delicado.
E é precisamente por isso que muitos países optam por avaliar caso a caso, ponderando a gravidade dos factos, a solidez da acusação, a capacidade de governação e as regras constitucionais aplicáveis.
O que está realmente em julgamento?
Talvez nem seja apenas Francisco Carvalho. O que está verdadeiramente em julgamento é a maturidade institucional de Cabo Verde.
Será o Ministério Público capaz de sustentar em tribunal uma acusação desta dimensão?
Será a defesa capaz de desmontá-la, se entender que ela é infundada?
Será o Governo capaz de continuar a governar sem ficar paralisado pelo processo?
Será a oposição capaz de fiscalizar sem transformar a justiça numa arma política?
E serão os jornais capazes de informar sem condenar antecipadamente?
São essas perguntas que definirão a qualidade da democracia cabo-verdiana.
Porque um Estado de Direito vive de um princípio simples.
Ninguém deve ser condenado antes do julgamento.
Mas uma democracia também vive de outro princípio.
Quem exerce os mais altos cargos públicos sabe que a responsabilidade política e ética é, muitas vezes, mais exigente do que a responsabilidade penal.
É precisamente entre estas duas exigências — a presunção de inocência e a confiança pública — que Cabo Verde terá de encontrar a sua resposta.