
Líder parlamentar da oposição acusa o Programa do Governo de ser uma lista de intenções sem custos, sem calendário e sem fontes de financiamento. A crítica é politicamente previsível, mas toca num dos maiores desafios da nova governação.
Na política há críticas que fazem parte do ritual.
E há críticas que obrigam um Governo a sair da zona de conforto.
A intervenção do líder parlamentar do MpD, Luís Carlos Silva, pertence mais à segunda categoria do que à primeira.
Enquanto Francisco Carvalho apresentava ao Parlamento um Governo de reformas, esperança e ambição, o MpD escolheu um caminho diferente.
Não discutiu, para já, a desejabilidade das medidas.
Perguntou algo mais simples.
**Quem paga?**
## **Das promessas às contas**
O argumento central da oposição resume-se numa ideia.
Um Programa do Governo não pode limitar-se a anunciar objetivos.
Tem de explicar como serão concretizados.
Segundo Luís Carlos Silva, o documento apresentado pelo Executivo foge precisamente às perguntas essenciais:
Quanto custa?
Quando começa?
Como será financiado?
Qual o impacto nas contas públicas?
É uma crítica tecnicamente consistente.
Porque qualquer programa governativo vive sempre entre dois mundos.
O das promessas.
E o dos orçamentos.
## **A política também se faz com folhas de Excel**
Francisco Carvalho prometeu reduzir o preço dos transportes marítimos.
Prometeu ensino superior gratuito.
Reforço da saúde.
Mais habitação.
Mais emprego.
Mais descentralização.
Mais Estado social.
O MpD responde que nenhuma destas medidas vem acompanhada daquilo que, em gestão pública, é indispensável.
As contas.
É um argumento que qualquer ministro das Finanças compreenderia imediatamente.
## **Mas a oposição também tem memória**
Aqui entra aquilo que o *Notícias do Norte* considera essencial.
A memória política.
É legítimo o MpD exigir rigor financeiro.
Aliás, deve fazê-lo.
É esse o papel da oposição.
Mas também é legítimo recordar que muitos dos grandes anúncios feitos durante os últimos dez anos de governação do MpD foram igualmente apresentados sem que os cabo-verdianos conhecessem, desde o primeiro dia, todos os estudos financeiros, calendários ou fontes de financiamento.
A política cabo-verdiana raramente começa pelas contas.
Normalmente começa pelas promessas.
E só depois chega o Orçamento do Estado.
## **A verdadeira prova ainda não chegou**
Existe, porém, uma diferença importante.
O Programa do Governo não é o Orçamento do Estado.
É um documento de orientação política.
Quem transformará essas intenções em números será o primeiro Orçamento apresentado pelo novo Executivo.
Será aí que as perguntas hoje levantadas pelo MpD deixarão de ser retóricas.
Passarão a exigir respostas concretas.
Quanto custa a tarifa marítima de 500 escudos?
Qual será o impacto do ensino superior gratuito?
Como será financiada a expansão da saúde pública?
É aí que o debate deixará de ser político para passar a ser económico.
## **O parágrafo que o Governo deve guardar**
Há uma frase da intervenção de Luís Carlos Silva que merece ser sublinhada.
*”Responsabilidade política significa dizer ao país não apenas o que se pretende fazer, mas também quando, como, quanto custa e quem paga.”*
Independentemente da disputa partidária, trata-se de um princípio saudável.
Porque governação não se mede apenas pela dimensão das promessas.
Mede-se pela capacidade de financiá-las sem comprometer o futuro.
## **Entre a esperança e a aritmética**
O Governo apresenta um programa assente na esperança.
A oposição responde com a aritmética.
Ambas são necessárias.
Sem esperança, um país não avança.
Sem contas certas, também não.
O Parlamento começou hoje a fazer aquilo para que existe.
Não apenas ouvir promessas.
Mas perguntar como serão cumpridas.
E talvez seja essa a melhor notícia do dia.
Porque, numa democracia madura, os governos têm o direito de sonhar.
Mas têm igualmente o dever de explicar como pensam pagar esses sonhos.