O MpD pede contas antes do tempo. Mas levanta a pergunta que todos os governos acabam por enfrentar

17/07/2026 22:23 - Modificado em 17/07/2026 22:23

Líder parlamentar da oposição acusa o Programa do Governo de ser uma lista de intenções sem custos, sem calendário e sem fontes de financiamento. A crítica é politicamente previsível, mas toca num dos maiores desafios da nova governação.

Na política há críticas que fazem parte do ritual.

E há críticas que obrigam um Governo a sair da zona de conforto.

A intervenção do líder parlamentar do MpD, Luís Carlos Silva, pertence mais à segunda categoria do que à primeira.

Enquanto Francisco Carvalho apresentava ao Parlamento um Governo de reformas, esperança e ambição, o MpD escolheu um caminho diferente.

Não discutiu, para já, a desejabilidade das medidas.

Perguntou algo mais simples.

**Quem paga?**

## **Das promessas às contas**

O argumento central da oposição resume-se numa ideia.

Um Programa do Governo não pode limitar-se a anunciar objetivos.

Tem de explicar como serão concretizados.

Segundo Luís Carlos Silva, o documento apresentado pelo Executivo foge precisamente às perguntas essenciais:

Quanto custa?

Quando começa?

Como será financiado?

Qual o impacto nas contas públicas?

É uma crítica tecnicamente consistente.

Porque qualquer programa governativo vive sempre entre dois mundos.

O das promessas.

E o dos orçamentos.

## **A política também se faz com folhas de Excel**

Francisco Carvalho prometeu reduzir o preço dos transportes marítimos.

Prometeu ensino superior gratuito.

Reforço da saúde.

Mais habitação.

Mais emprego.

Mais descentralização.

Mais Estado social.

O MpD responde que nenhuma destas medidas vem acompanhada daquilo que, em gestão pública, é indispensável.

As contas.

É um argumento que qualquer ministro das Finanças compreenderia imediatamente.

## **Mas a oposição também tem memória**

Aqui entra aquilo que o *Notícias do Norte* considera essencial.

A memória política.

É legítimo o MpD exigir rigor financeiro.

Aliás, deve fazê-lo.

É esse o papel da oposição.

Mas também é legítimo recordar que muitos dos grandes anúncios feitos durante os últimos dez anos de governação do MpD foram igualmente apresentados sem que os cabo-verdianos conhecessem, desde o primeiro dia, todos os estudos financeiros, calendários ou fontes de financiamento.

A política cabo-verdiana raramente começa pelas contas.

Normalmente começa pelas promessas.

E só depois chega o Orçamento do Estado.

## **A verdadeira prova ainda não chegou**

Existe, porém, uma diferença importante.

O Programa do Governo não é o Orçamento do Estado.

É um documento de orientação política.

Quem transformará essas intenções em números será o primeiro Orçamento apresentado pelo novo Executivo.

Será aí que as perguntas hoje levantadas pelo MpD deixarão de ser retóricas.

Passarão a exigir respostas concretas.

Quanto custa a tarifa marítima de 500 escudos?

Qual será o impacto do ensino superior gratuito?

Como será financiada a expansão da saúde pública?

É aí que o debate deixará de ser político para passar a ser económico.

## **O parágrafo que o Governo deve guardar**

Há uma frase da intervenção de Luís Carlos Silva que merece ser sublinhada.

*”Responsabilidade política significa dizer ao país não apenas o que se pretende fazer, mas também quando, como, quanto custa e quem paga.”*

Independentemente da disputa partidária, trata-se de um princípio saudável.

Porque governação não se mede apenas pela dimensão das promessas.

Mede-se pela capacidade de financiá-las sem comprometer o futuro.

## **Entre a esperança e a aritmética**

O Governo apresenta um programa assente na esperança.

A oposição responde com a aritmética.

Ambas são necessárias.

Sem esperança, um país não avança.

Sem contas certas, também não.

O Parlamento começou hoje a fazer aquilo para que existe.

Não apenas ouvir promessas.

Mas perguntar como serão cumpridas.

E talvez seja essa a melhor notícia do dia.

Porque, numa democracia madura, os governos têm o direito de sonhar.

Mas têm igualmente o dever de explicar como pensam pagar esses sonhos.

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