
O Primeiro-Ministro evita comentar a acusação do Ministério Público, centra discurso nas prioridades do Governo e devolve ao MpD a responsabilidade pelos últimos dez anos de governação.
Pelo meio, deixa uma pergunta que promete alimentar o debate político: “Onde foi redigida a acusação?”Há um velho princípio da política que diz que, quando a justiça bate à porta, governar passa a ser também uma forma de responder.
Foi essa a estratégia escolhida por Francisco Carvalho.
Depois de o Ministério Público deduzir uma acusação contra o actual Primeiro-Ministro e de o MpD defender publicamente a sua saída do cargo, Francisco Carvalho optou por não entrar na discussão jurídica do processo.
Preferiu falar de governação.
“A partir do dia 17, com o Programa do Governo aprovado e a moção de confiança aprovada, vamos começar a trabalhar de facto e construir aquele Cabo Verde para Todos que prometemos aos cabo-verdianos”, afirmou.
Foi uma resposta política a uma crise que, desde ontem, deixou de ser apenas judicial.
A mensagem é clara: o Governo não pára
Em vez de comentar os crimes que lhe são imputados pelo Ministério Público, Francisco Carvalho procurou recentrar o debate nas promessas eleitorais.
Educação.
Saúde.
Transportes inter-ilhas.
Segundo o chefe do Governo, é aí que deve estar concentrada a atenção do Executivo.
Os problemas dos cabo-verdianos, defendeu, continuam à espera de solução, independentemente do ruído político que hoje domina a agenda nacional.
O contra-ataque ao MpD
Mas Francisco Carvalho não ficou apenas pela agenda governativa.
Aproveitou também para inverter o foco da discussão.
Em vez de responder às críticas do MpD, perguntou porque razão o maior partido da oposição não está a prestar contas da governação dos últimos dez anos.
Como exemplo, referiu um projecto de cadastro financiado em cerca de três milhões de dólares, alegando que dois milhões já terão sido gastos sem resultados práticos.
É uma estratégia conhecida na política.
Quando o debate ameaça centrar-se exclusivamente nas acusações que recaem sobre quem governa, a resposta consiste em recordar ao eleitorado aquilo que fez quem governou antes.
A frase que abre outra frente
Foi, contudo, já no final da intervenção que Francisco Carvalho deixou a declaração mais intrigante.
Sem identificar pessoas nem instituições, lançou uma pergunta:
“Onde foi redigida essa acusação? Em que escritório ou gabinete de consultoria jurídica essa acusação foi redigida?”
Perante a insistência dos jornalistas, não desenvolveu a ideia.
Limitou-se a repetir que seria importante esclarecer essa questão para pôr fim ao que classificou como “hipocrisia” e “cinismo” que, segundo afirmou, marcaram a governação do país na última década.
É uma afirmação politicamente forte.
Mas também uma afirmação que, pela sua gravidade, ficará inevitavelmente sujeita ao escrutínio público.
Se sugere que a acusação poderá ter sido influenciada por interesses externos ao Ministério Público, trata-se de uma insinuação que exigirá, mais cedo ou mais tarde, elementos concretos que a sustentem.
Entre o processo e a política
O país assiste agora a duas narrativas paralelas.
De um lado, o Ministério Público sustenta que existem indícios suficientes para levar o Primeiro-Ministro e outros arguidos a julgamento.
Do outro, Francisco Carvalho recusa discutir o mérito da acusação em praça pública, insiste na legitimidade democrática conferida pelas urnas e procura recentrar o debate na execução do programa de Governo.
São dois planos distintos.
Um será decidido pelos tribunais.
O outro será julgado diariamente pela política.
O teste das instituições
O debate que hoje domina Cabo Verde ultrapassa largamente a figura de Francisco Carvalho.
É um teste à capacidade das instituições funcionarem sem se confundirem.
Ao Ministério Público cabe acusar quando entende existirem indícios suficientes.
À defesa cabe responder em tribunal.
Ao Governo cabe governar.
À oposição cabe fiscalizar.
E aos jornais cabe uma responsabilidade talvez menos visível, mas não menos importante: informar sem substituir os tribunais e escrutinar sem transformar uma acusação numa sentença antecipada.
Porque numa democracia madura, a justiça não governa.
Mas também a política não julga.