O Mundial acabou. A maior decisão começa agora.
Por: Eduino Santos

Ao longo deste Mundial, o Notícias do Norte escreveu dezenas de páginas sobre uma Seleção que começou por surpreender o mundo e acabou por obrigar o mundo a falar dela.
Quando muitos aconselhavam prudência, nós escrevemos que estava na hora de abandonar as vitórias morais.
Quando o antigo selecionador Lúcio Antunes pediu aos cabo-verdianos que moderassem as expectativas para evitar frustrações, respondemos que um povo que já tinha sobrevivido à maior frustração da sua história — ser eliminado de um Mundial por um erro administrativo tão infantil quanto inexplicável — não podia ter medo de voltar a sonhar.
Quando se tentou explicar a história de David e Golias pela coragem ou pela fé, fomos buscar o texto bíblico para lembrar que David não venceu porque enfrentou Golias de peito aberto. Venceu porque recusou jogar o jogo de Golias.
Porque pensou. Porque escolheu o terreno. Porque percebeu que estratégia derrota força.
E felizmente Bubista também entendia de estratégia que juntou a raça e um grande , grande amor por Cabo Verde . Mostramos que ainda existem jogadores que jogam por amor ao seu país.
Ao longo deste Mundial recusou fazer o jogo da Espanha. Recusou fazer o jogo do Uruguai. Recusou fazer o jogo da Arábia Saudita. E até diante da campeã do mundo recusou abdicar da identidade da sua equipa.
Foi isso que fez de Cabo Verde uma das histórias deste Campeonato do Mundo.
Também defendemos outra ideia.
Que as instituições deviam permanecer instituições.
Quando o Presidente da República sugeriu publicamente que gostaria de ver Abel Ferreira como selecionador nacional, escrevemos que o país já tinha um treinador sentado no banco. Quando anunciou que iria pedir uma camisola para Lionel Messi, lembrámos que as homenagens pertencem à Federação Cabo-verdiana de Futebol e aos jogadores. Porque as instituições funcionam melhor quando cada uma respeita o espaço da outra. Também o dissemos quando entendemos que o Presidente da República esteve à altura da magistratura que exerce. Saudámos, sem reservas, a decisão de condecorar os Tubarões Azuis, a equipa técnica e a Federação Cabo-verdiana de Futebol. A atribuição da Ordem do Dragoeiro, Primeiro Grau, ao selecionador Bubista e à Federação, bem como das Medalhas de Mérito aos jogadores e restantes elementos da comitiva, foi um gesto que competia ao Chefe de Estado e que uniu os cabo-verdianos em torno da sua Seleção.
Foi um momento em que a Presidência fez exatamente aquilo que dela se espera: reconheceu. Não quis escolher treinadores, não quis definir homenagens, não quis substituir a Federação nas suas competências. Limitou-se a exercer a mais nobre das funções do Presidente da República: representar a Nação e homenagear, através das mais altas distinções do Estado, quem elevou o nome de Cabo Verde no mundo. E quando as instituições permanecem no seu lugar, quem ganha é a República.
Hoje, terminado o Mundial, sobra apenas uma pergunta.
E agora, Cabo Verde?
Porque o Mundial termina. Mas o futuro começa precisamente agora.
Durante um mês, Cabo Verde deixou de ser apenas um pequeno arquipélago perdido no Atlântico.Passou a ser um nome repetido por comentadores ingleses, argentinos, brasileiros, espanhóis, franceses e norte-americanos.
O The Guardian escreveu que a pequena seleção africana quase produziu um dos maiores choques da história dos Mundiais. A Associated Press falou de uma campanha inspiradora que conquistou respeito global. A Reuters já não olha apenas para o que aconteceu dentro das quatro linhas; olha para as crianças das academias da Praia que agora sonham mais alto, porque acreditam que o caminho até ao Mundial deixou de ser uma fantasia.
Durante algumas semanas, o mundo aprendeu duas palavras.
Cabo Verde.
E isso tem um valor que ainda ninguém consegue medir.Durante décadas, os cabo-verdianos espalhados pelo mundo começavam as conversas com uma aula de geografia.
“Onde fica Cabo Verde?”
“É perto de quê?”
“Fala-se português porquê?”
Hoje essa conversa começa de forma diferente.
“Ah… Cabo Verde! A equipa que fez sofrer a Argentina.”
É uma mudança enorme. Mas seria um erro histórico pensar que esse reconhecimento internacional basta.
O futebol abre portas. Não as atravessa.
A pergunta decisiva é saber se Cabo Verde será capaz de transformar notoriedade em desenvolvimento.
Em academias. Em melhores campeonatos nacionais. Em infraestruturas. Em formação de treinadores. Em observação de talentos. Em investimento privado. Em turismo. Em marca-país.
Marrocos fez isso depois do Mundial de 2022. A Croácia fez isso depois de 1998.
A Islândia aproveitou o Europeu de 2016 para revolucionar toda a sua formação.
Cabo Verde tem agora a mesma oportunidade.Porque os Mundiais não mudam países.
Mudam mentalidades.
Há outra pergunta igualmente importante.
O que acontecerá quando desaparecerem os holofotes?
Porque o verdadeiro teste começa quando as televisões internacionais deixam de estar apontadas para nós.
Será que continuaremos a investir? Será que continuaremos a acreditar?
Ou voltaremos à velha tradição de celebrar feitos extraordinários para depois regressarmos à rotina da improvisação? E não vou dar como exemplo o caso … Cesária Évora
O maior erro seria pensar que este Mundial foi um ponto de chegada.
Não foi. Foi apenas a primeira pedra.Talvez a mais importante.
Mas apenas a primeira.
Há países que fazem história. E há países que sabem aproveitar a História.
Cabo Verde já fez a primeira parte.
Agora falta a segunda. O Mundial deu-nos uma montra que nunca tivemos.
Deu-nos respeito. Visibilidade. Credibilidade. Autoestima.
Mas nenhuma destas conquistas se transforma, por si só, em desenvolvimento.
É preciso visão. Planeamento. Continuidade.
Bubista mostrou ao mundo que uma pequena seleção pode derrotar gigantes através da inteligência. Agora cabe ao país provar que também sabe pensar estrategicamente fora das quatro linhas.
Porque a maior vitória deste Mundial não será a que ficou nos resultados.
Será aquela que ainda está por conquistar. A resposta à pergunta que começa hoje.E agora, Cabo Verde?