Cabo Verde caiu de pé, depois de encostar a campeã do mundo às cordas

4/07/2026 00:52 - Modificado em 4/07/2026 01:00

Durante 120 minutos, Cabo Verde obrigou a campeã do mundo a jogar no limite das suas capacidades

Sidny Lopes Cabral celebrates with teammates after scoring Cape Verde’s second goal during the match with Argentina.  (Michael Reaves/Getty Images)

Há derrotas que nascem da inferioridade.E há derrotas que nascem porque, do outro lado, estava simplesmente uma das melhores seleções da história. A de Cabo Verde diante da Argentina pertence claramente à segunda categoria.

Quem olhar apenas para o resultado verá um 3-2 após prolongamento.

Quem olhar para o jogo verá algo muito maior. Verá uma seleção cabo-verdiana que conseguiu fazer aquilo que poucas equipas conseguem diante da campeã do mundo: tirar-lhe o controlo emocional e tácito do jogo  e encostar as cordas

A Argentina nunca teve um jogo confortável

Ao contrário do que muitos imaginavam, a Argentina nunca conseguiu instalar aquele domínio absoluto que normalmente exerce sobre os adversários. Sim, teve mais posse.

Sim, criou mais oportunidades. Mas nunca conseguiu transformar essa superioridade numa sensação de tranquilidade. Sempre que parecia controlar o encontro, Cabo Verde encontrava uma resposta. Foi essa capacidade de responder aos momentos do jogo que mais impressionou. Não houve rendição psicológica. Nem quando sofreu.Nem quando esteve novamente em desvantagem.

Ao longo deste Mundial, Bubista mostrou uma característica rara. Não adapta a identidade da equipa ao nome do adversário. Adapta-a às características do adversário.

Contra a Espanha recusou disputar a posse. Contra o Uruguai recusou entrar na batalha física. Contra a Arábia Saudita recusou cair na ansiedade do favoritismo. Contra a Argentina recusou transformar o jogo num exercício permanente de sobrevivência.

Sempre que recuperava a bola, Cabo Verde procurava jogar. Mesmo sabendo que qualquer perda podia ser fatal. Foi uma decisão corajosa. E inteligente. Porque defender durante 120 minutos contra a Argentina seria apenas adiar o inevitável.

O coletivo voltou a ser a grande estrela

Muito se falará de Messi. Dos golos. Dos momentos individuais.

Mas, do lado cabo-verdiano, a grande figura voltou a ser o coletivo. As linhas mantiveram-se próximas. As coberturas funcionaram.Os médios nunca deixaram a defesa exposta. Os extremos fecharam os corredores. A equipa deslocava-se praticamente como um bloco único. Foi essa organização que impediu a Argentina de encontrar os espaços interiores que normalmente explora com enorme facilidade.

Não foi um futebol bonito. Foi um futebol extremamente competente.

Há uma diferença enorme entre a seleção que chegou ao Mundial e a seleção que dele sai. No primeiro jogo, Cabo Verde procurava provar que pertencia a este palco.

Hoje já ninguém coloca essa questão. A equipa joga como quem acredita que pertence naturalmente à elite. Essa mudança de mentalidade talvez seja o maior legado de Bubista. Os Tubarões Azuis deixaram de jogar para evitar goleadas.

Passaram a jogar para discutir resultados. E isso muda tudo.

A Argentina teve de mudar

Talvez o maior elogio que se possa fazer a Cabo Verde seja este: Foi a Argentina que teve de encontrar soluções diferentes.

Não foi Cabo Verde que andou atrás do jogo.

Foi a campeã do mundo que precisou de acelerar ritmos, alterar posicionamentos e recorrer ao talento individual para desbloquear uma partida que tacitamente se complicava à medida que o relógio avançava.

Quando uma equipa obriga a Argentina a sair do plano inicial, significa que fez quase tudo bem.

O prolongamento mostrou a diferença

O jogo acabou por decidir-se onde normalmente se decidem estes confrontos. Na profundidade do plantel. A Argentina possui jogadores capazes de manter a intensidade durante cento e vinte minutos. Cabo Verde respondeu enquanto teve pernas.

Respondeu enquanto teve energia. Respondeu enquanto conseguiu manter as distâncias entre sectores. Mas o prolongamento cobra sempre um preço elevado às equipas que passam muito tempo sem bola.

E foi aí que apareceu a diferença entre uma seleção campeã do mundo e uma seleção que está a dar os primeiros passos neste palco.

Não foi uma diferença de coragem. Nem de organização. Foi uma diferença de recursos.

NN

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