A camisola da boa intenção que acaba por transmitir a mensagem errada.

Há gestos que nascem da melhor das intenções com a camisola que o Presidente da República exibiu, nas redes sociais, com a inscrição do nome de Cabo Verde em várias línguas, pretende claramente celebrar a projeção internacional do país, num momento em que os Tubarões Azuis colocaram o nome de Cabo Verde na boca do mundo.
Mas talvez seja precisamente por isso que o gesto mereça uma reflexão. Porque nunca como agora foi tão importante afirmar uma ideia simples:
O nome do nosso país é Cabo Verde.
Não “Cape Verde”.
Não “Cap Vert”.
Não “Kap Verde”.
Não “Kaapverdië”.
Não “Kabuverdi”
Cabo Verde. E ponto final
O mundo finalmente está a aprender
Há poucos dias, a imprensa britânica fez questão de explicar aos seus leitores que o nome oficial do país é Cabo Verde, e não “Cape Verde”.
O mesmo aconteceu na Irlanda.
Vários comentadores lembraram que o próprio Governo cabo-verdiano pediu oficialmente, há anos, que o país fosse designado internacionalmente por Cabo Verde, respeitando o nome constitucional e oficial do Estado. A decisão de passar a utilizar oficialmente “Cabo Verde”, sem tradução para qualquer idioma, não surgiu por acaso nem foi uma imposição das Nações Unidas. Foi uma iniciativa do próprio Estado cabo-verdiano, através do Governo liderado por José Maria Neves em 2013
Foi uma vitória diplomática. Foi também uma vitória identitária.
Durante décadas, os cabo-verdianos emigrados cansaram-se de explicar onde ficava Cabo Verde. Agora, graças ao Mundial, já não precisam.
O mundo aprendeu finalmente a dizer:
Cabo Verde.
Existe outro aspecto interessante. Em português não traduzimos nomes próprios oficiais dos Estados quando estes definem a forma como desejam ser identificados internacionalmente.
Hoje dizemos:
Côte d’Ivoire. E não Costa do Marfim
Timor-Leste.
Burkina Faso. E não Alto Volta
E dizemos Cabo Verde.
Aliás, a própria Organização das Nações Unidas passou a adotar oficialmente “Cabo Verde” em vez das traduções tradicionais. É uma questão de respeito pela identidade nacional.
A ironia da camisola
A camisola pretende mostrar Cabo Verde em várias línguas.
Mas acaba por transmitir exactamente a ideia que Cabo Verde passou anos a combater.
A de que o nome do país muda conforme a língua.
Não muda. Muda a língua. Não muda o nome.
É como acontece com uma pessoa.
Se alguém se chama José, continua a chamar-se José em Londres, Paris ou Nova Iorque.
Não passa automaticamente a chamar-se Joseph, Joséph ou Joe.
O nome oficial continua a ser o mesmo. Os países também têm esse direito.
O Mundial resolveu um problema histórico
Quem viveu na diáspora sabe do que falamos.
Durante décadas era preciso explicar:
— Onde fica?
— É em África?
— Falam português porquê?
Agora basta dizer:
Somos Cabo Verde.
E imediatamente aparece a imagem de Vozinha. Dos Tubarões Azuis. Do empate com a Espanha. Da classificação histórica.
É talvez o maior ganho deste Mundial. A identidade passou finalmente a viajar mais depressa do que as explicações.
Não se trata de criticar uma camisola. Nem de discutir uma publicação nas redes sociais.
Trata-se de algo maior.
Quando o mundo finalmente aprende a chamar-nos pelo nosso verdadeiro nome, somos nós os primeiros a não criar ruído.
O Presidente da República, enquanto mais alto magistrado da Nação, tem também a missão simbólica de afirmar essa identidade. E hoje essa identidade escreve-se de uma única maneira : Cabo Verde.
Ainda mais quando foi ele , como primeiro-ministro, que em 24 de outubro de 2013, o Governo de Cabo Verde, por intermédio da Missão Permanente junto das Nações Unidas, enviou uma comunicação oficial ao então Secretário-Geral da ONU solicitando que o nome do país deixasse de ser traduzido em todas as línguas oficiais da organização.
Sem tradução. Sem adaptações. Sem necessidade de explicar.
Porque talvez a maior vitória deste Mundial nem tenha acontecido dentro das quatro linhas. Aconteceu quando milhões de pessoas, pela primeira vez, aprenderam que aquele pequeno arquipélago africano não se chama “Cape Verde”, nem “Cap Vert”.
Chama-se, simplesmente : Cabo Verde.
E, depois de tantos anos a ensinar o mundo a pronunciar corretamente o nosso nome, seria um desperdício sermos nós próprios a voltar atrás.
Noticias do Norte