O empate frente ao Uruguai teve duas histórias. A primeira foi escrita pelos jornais internacionais. A segunda ficou presa na garganta de muitos cabo-verdianos.

A imprensa mundial viu uma pequena nação africana voltar a desafiar as hierarquias do futebol. Depois da Espanha, foi a vez do Uruguai tropeçar na organização, na coragem e na inteligência táctica dos Tubarões Azuis. A Reuters falou de uma equipa “resiliente” e de um Cabo Verde que continua a surpreender o Mundial. ([Reuters][1])
O *The Guardian* destacou a capacidade de resistência da equipa de Bubista e a forma como Cabo Verde voltou a sobreviver a uma das potências históricas do futebol mundial. ([The Guardian)
Os ingleses viram um empate. Os cabo-verdianos viram algo mais. Viram uma equipa que esteve várias vezes por cima do jogo.
Viram uma selecção que marcou primeiro. Viram um grupo que voltou a provar que o empate com a Espanha não foi acidente. Mas viram também um episódio que está a alimentar discussões nas redes sociais.
O lance do golo uruguaio. Não pela sua legalidade. Mas pela sua legitimidade moral.
O futebol tem regras escritas. E depois tem regras não escritas. As primeiras são aplicadas pelos árbitros. As segundas são aplicadas pela consciência dos jogadores. Ao longo de décadas, criou-se um princípio simples. Quando um jogador se lesiona e a equipa adversária coloca a bola fora para permitir assistência médica, espera-se que a posse seja devolvida.
Não é uma obrigação regulamentar. É uma convenção. Uma espécie de pacto de cavalheiros que sobreviveu ao profissionalismo, aos milhões e aos VAR. É aquilo a que se chama fair play.
Nas redes sociais cabo-verdianas, muitos adeptos consideram que esse princípio não foi respeitado no lance que antecedeu o empate uruguaio.
Os comentários repetem a mesma ideia: “O golo pode ser legal, mas não foi bonito.”
É uma discussão antiga no futebol. Legalidade e legitimidade nem sempre caminham juntas.
A verdade é que também existe alguma ingenuidade nesta indignação. Porque o Uruguai não chegou ontem ao futebol mundial. A sua identidade competitiva foi construída exatamente na fronteira entre a agressividade competitiva, a astúcia e aquilo que os brasileiros batizaram há décadas como “catimba”.
É uma escola futebolística. Não necessariamente bonita. Mas extremamente eficaz. Os uruguaios não pedem desculpa por isso. Nunca pediram. Ganharam Copas do Mundo. Ganharam Copas América.
Ganharam respeito. E também conquistaram fama. Uma fama construída precisamente sobre a ideia de que num jogo decisivo utilizam todas as armas permitidas pela regra.
E às vezes algumas que vivem na zona cinzenta do espírito da regra. Por isso, talvez a surpresa não esteja no comportamento do Uruguai. Talvez esteja na persistência romântica de quem ainda acredita que os sul-americanos abandonariam uma oportunidade de golo em pleno Campeonato do Mundo para respeitar um código de cavalheirismo.
Mas existe um risco. O risco de Cabo Verde perder-se na discussão do lance. Porque o essencial do jogo não está aí. O essencial é outro.
Pela segunda vez consecutiva, uma selecção teoricamente inferior entrou em campo contra um gigante do futebol mundial e saiu sem perder. Pela segunda vez consecutiva, Bubista demonstrou que o empate com a Espanha não foi fruto do acaso.
Pela segunda vez consecutiva, Cabo Verde obrigou uma potência futebolística a adaptar-se ao seu jogo. E talvez seja precisamente isso que mais incomoda os adversários. Antes do Mundial, Cabo Verde era uma história simpática.
Agora transformou-se num problema.
Os jornais internacionais estão a falar de Vozinha. Estão a falar de Bubista. Estão a falar da organização cabo-verdiana. Estão a falar da possibilidade real de uma qualificação histórica. ([Reuters])
Quase ninguém está a falar do Uruguai. E isso talvez diga tudo. Quanto ao lance do empate, a discussão continuará. Uns dirão que faz parte do jogo. Outros dirão que o fair play foi atropelado. Provavelmente ambos terão argumentos.
Mas quando a poeira assentar, a história que ficará deste jogo não será a do golo uruguaio. Será a de um pequeno país atlântico que entrou num grupo com Espanha e Uruguai e, passadas duas jornadas, continua invicto. E essa é uma história suficientemente grande para não precisar de ajuda de nenhuma polémica.
Eduino Santos