
]Quando os jornais espanhóis passaram da arrogância para a explicação
Durante uma semana inteira, a imprensa espanhola discutiu a Espanha.
Depois do jogo, discutiu Cabo Verde.
A diferença parece subtil.
Não é.
Antes do apito inicial, Cabo Verde era tratado como um detalhe geográfico.
Uma pequena nação africana.
Uma estreia simpática.
Uma curiosidade do Mundial.
Uma espécie de aperitivo antes dos jogos “a sério”.
Os jornais falavam da recuperação de Lamine Yamal.
Da qualidade de Pedri.
Da candidatura espanhola ao título mundial.
Da superioridade técnica da Roja.
Poucos falavam dos Tubarões Azuis.
E quando falavam era quase em tom folclórico.
O problema surgiu quando a bola começou a rolar.
Noventa minutos depois, os jornais espanhóis já não estavam a escrever sobre a candidatura da Espanha ao título.
Estavam a tentar explicar porque razão não conseguiram vencer Cabo Verde.
E isso, por si só, já é uma vitória cabo-verdiana.
O jornal desportivo espanhol AS foi brutal na manchete.
Chamou ao empate um “Petardazo”, expressão usada em Espanha para designar um fracasso inesperado, um fiasco, uma explosão de desilusão. O jornal falava de uma Espanha sem alma, sem eficácia e incapaz de derrubar a muralha
A Cadena SER descreveu um cenário semelhante.
A Espanha dominou.
Teve a bola.
Teve os passes.
Teve os nomes.
Mas encontrou-se repetidamente contra aquilo que os jornalistas espanhóis chamaram de “muro de Cabo Verde”. No final, a conclusão era simples: a Espanha saiu obrigada a vencer os próximos jogos para evitar complicações. (Cadena SER)
O Huffington Post Espanha escolheu uma palavra ainda mais dolorosa:
“Impotência”.
Impotência de uma selecção cheia de estrelas perante uma equipa que muitos tinham dado como vítima antes mesmo de entrar em campo. (ElHuffPost)
Mas talvez a manchete mais interessante tenha vindo de fora de Espanha.
O The Guardian descreveu a exibição cabo-verdiana como uma das maiores demonstrações defensivas deste Mundial, destacando Vozinha, Pico Lopes e a organização colectiva dos Tubarões Azuis. Para os britânicos, Cabo Verde não sobreviveu ao jogo.
Controlou-o à sua maneira. (The Guardian)
E é precisamente aqui que a história fica interessante.
Porque aquilo que muitos jornais espanhóis apresentaram como um problema da Espanha foi também um mérito de Cabo Verde.
Durante anos habituámo-nos a olhar para o futebol apenas através dos nomes.
Quem vale mais.
Quem joga no Real Madrid.
Quem joga no Barcelona.
Quem joga na Premier League.
Quem custa cem milhões.
Quem custa duzentos milhões.
Mas o futebol continua a cometer o mesmo pecado.
Confundir talento individual com superioridade garantida.
Cabo Verde recordou ao mundo uma velha verdade.
O futebol não é um concurso de currículos.
É um jogo de estratégia.
A Espanha teve mais bola.
Mas Cabo Verde teve mais clareza sobre aquilo que queria fazer com o jogo.
A Espanha entrou convencida de que mais cedo ou mais tarde o golo apareceria.
Cabo Verde entrou convencido de que o golo espanhol podia nunca aparecer.
Parece a mesma coisa.
Não é.
É uma diferença filosófica.
Enquanto um jogava para confirmar uma superioridade presumida, o outro jogava para construir uma surpresa possível.
E durante noventa minutos a surpresa esteve mais perto do que a confirmação.
Talvez por isso as manchetes espanholas falem hoje de fracasso, desilusão, impotência e preocupação.
Porque a Espanha descobriu uma coisa que os cabo-verdianos já sabiam.
Os Tubarões Azuis não viajaram para o Mundial para agradecer convites.
Nem para coleccionar camisolas.
Nem para tirar fotografias com as estrelas.
Vieram competir.
Vieram incomodar.
Vieram obrigar os favoritos a justificar o favoritismo.
E quando um país com pouco mais de meio milhão de habitantes consegue transformar a imprensa espanhola numa gigantesca sessão de explicações, talvez tenha acontecido algo maior do que um simples empate.
Talvez tenha acontecido aquilo que os resultados nem sempre conseguem medir.
Respeito.
E o respeito, no futebol internacional, raramente se oferece.
Conquista-se.
Cabo Verde começou ontem a conquistar o seu.