Os filhos da emigração estão a escolher a terra dos pais. Cabo Verde percebeu isso antes de muitos

12/06/2026 01:15 - Modificado em 12/06/2026 01:15

Enquanto a Europa debate integração, identidade e imigração, a Federação Cabo-verdiana anda há anos a recrutar a sua diáspora futebolística

Há uma revolução silenciosa a acontecer no futebol mundial.

E não tem a ver com tácitas. Nem com sistemas de jogo. Nem com inteligência artificial aplicada ao desporto. Tem a ver com identidade.

Cada vez mais jogadores nascidos em França, Holanda, Bélgica, Espanha, Portugal, Alemanha ou Estados Unidos estão a rejeitar as seleções dos países onde nasceram para representar os países dos pais ou dos avós.

Marrocos tornou-se talvez o caso mais conhecido.

Depois do histórico Mundial de 2022, os marroquinos intensificaram uma política agressiva de identificação e recrutamento de jovens talentos da diáspora. Nos últimos anos convenceram vários internacionais jovens de França, Bélgica e Holanda a trocar os gigantes europeus pelos Atlas Lions.

E isso está a gerar um debate interessante. Porquê? Porque muitos destes jovens nasceram na Europa. Estudaram na Europa.

Foram formados nos centros de treino europeus. Mas quando chega o momento da escolha emocional, escolhem Rabat em vez de Paris, Casablanca em vez de Bruxelas ou Marrocos em vez da Holanda.

Alguns analistas relacionam o fenómeno com o crescimento dos discursos anti-imigração e da extrema-direita em vários países europeus. Há jogadores que cresceram a ouvir que são franceses, holandeses ou belgas quando a equipa ganha, mas imigrantes quando a equipa perde.

Mesut Özil resumiu o problema numa frase histórica quando abandonou a selecção alemã:

“Sou alemão quando ganhamos e imigrante quando perdemos.”

Mas seria simplista reduzir tudo à política. Existe também uma questão de identidade. De pertença. De família. De orgulho cultural.

Muitos destes jovens cresceram em Amesterdão, Paris ou Madrid, mas dentro de casa continuavam a viver uma segunda pátria. Falavam outra língua. Comiam outra comida. Ouviam outra música.

Celebravam outras histórias. E quando chega o momento de escolher uma seleção nacional, escolhem também uma memória familiar. Em relação a Cabo Verde, sabemos que no passado a maioria, para não dizer todos, que tinham descendência cabo-verdiana, como Nani, Nelson Semedo, entre tantos, ou nascidos nas ilhas como Rolando e Cau optaram pela seleção portuguesa.

E é aqui que entra Cabo Verde entra nesta história. Porque enquanto muitos países africanos descobriram recentemente o valor da diáspora, a Federação Cabo-verdiana de Futebol percebeu isso há muito tempo. Com mais intensidade depois do “desastre de Tunes”, quando fomos eliminados na secretaria.

Muito antes de Marrocos transformar essa estratégia numa ciência quase militar. Muito antes dos europeus começarem a discutir porque estavam a perder talentos.

A Federação cabo-verdiana passou anos a identificar jovens promessas espalhadas pela diáspora e a integrá-las cedo nas seleções nacionais.

A lógica era simples. Não esperar que os grandes países decidissem. Chegar primeiro.

Criar ligação emocional. Construir sentimento de pertença. Fazer com que aqueles jovens se sentissem cabo-verdianos antes de se sentirem opções secundárias de outras seleções. Foi assim que surgiram vários nomes que hoje fazem parte do presente e do futuro dos Tubarões Azuis.

Sidney Cabral na Hollanda. Carlos, guarda-redes ligado ao futebol norte-americano, cresceu longe das ilhas. Pico tem raízes na Irlanda. Foi contacto por Rui Águas, selecionador na altura, através de uma rede social. E a lista continua a crescer.

Todos fazem parte da mesma realidade: são filhos ou netos da emigração que encontraram em Cabo Verde algo que muitas vezes não encontraram nos países onde nasceram. Um lugar onde não precisam explicar quem são. E talvez esteja aí o verdadeiro segredo. Durante décadas, Cabo Verde exportou gente.

Agora começa a importar identidade. Porque estes jovens não chegam apenas com qualidade futebolística. Chegam com histórias. Com experiências. Com ligações globais. Com uma visão do mundo construída entre duas culturas.

No fundo, a selecção nacional transformou-se num espelho da própria Nação Azul. Uma equipa que nasce nas ilhas, mas também em Boston. Em Roterdão. Em Lisboa. Em Paris. Em Providence. Em Brockton. Em Luxemburgo. Em Amesterdão.

A ironia é extraordinária. Durante anos disseram que a emigração era uma perda para Cabo Verde. Hoje, uma parte significativa da força dos Tubarões Azuis nasce precisamente dessa emigração. E talvez seja por isso que o Mundial está a produzir imagens tão poderosas.

Porque quando os cabo-verdianos vêem aqueles jogadores em campo não vêem apenas futebolistas. Vêem filhos da diáspora que regressaram. Mesmo quando nunca viveram nas ilhas.

E num mundo cada vez mais dividido por fronteiras, nacionalismos e discursos de exclusão, talvez essa seja uma das histórias mais bonitas que o futebol cabo-verdiano tem para contar.

Eduíno Santos

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