Lúcio Antunes pede moderação. A memória pede explicações

7/06/2026 01:36 - Modificado em 7/06/2026 01:36

Depois de 2013, ninguém tem o direito de pedir aos cabo-verdianos para sonharem menos.

Por: Eduino Santos

Há conselhos que dependem muito de quem os dá.

E quando Lúcio Antunes, ex treinador da seleção nacional, surge a pedir aos cabo-verdianos para moderarem as expectativas em relação ao Mundial, é inevitável que a memória colectiva faça uma viagem até 2013.

Porque há sonhos que acabam no campo.

E há sonhos que morrem na secretaria.

Cabo Verde sabe a diferença. Conhece a frustração. Nao precisa de mental coach nessa matéria.

O antigo seleccionador nacional alerta agora para o perigo das frustrações. Recorda que os Tubarões Azuis vão enfrentar algumas das melhores selecções do mundo e que não convém criar expectativas exageradas.

À primeira vista, parece um conselho sensato.

À segunda, começa a parecer estranho.

Sobretudo vindo de alguém cuja passagem pela selecção está associada ao mais inacreditável episódio da história do futebol cabo-verdiano.

Porque antes de existir o Mundial de 2026 existiu o Mundial de 2014.

E Cabo Verde esteve mais perto dele do que muitos hoje recordam.

A 7 de Setembro de 2013, a selecção orientada por Lúcio Antunes entrou em Tunes e escreveu uma das páginas mais gloriosas da história do futebol cabo-verdiano.

Venceu a Tunísia por 2-0 no seu próprio terreno.

Uma vitória histórica.

Uma vitória que garantiu o primeiro lugar do grupo e o inédito apuramento para o play-off final de acesso ao Mundial do Brasil.

Naquele dia, Cabo Verde não foi apenas uma selecção africana a vencer uma potência do continente.

Naquele dia, os Tubarões Azuis provaram que podiam sentar-se à mesa dos grandes.

O país inteiro sonhou.

E tinha razões para sonhar.

Porque o sonho tinha sido conquistado dentro do campo.

Com futebol.

Com talento.

Com coragem.

Com mérito.

Mas poucos dias depois entrou em campo um adversário que Cabo Verde nunca conseguiu derrotar: a incompetência administrativa.

Fernando Varela tinha sido expulso no jogo anterior.

Toda a gente sabia.

O jogador sabia.

Os adeptos sabiam.

Os jornalistas sabiam.

A FIFA sabia.

Pelos vistos, quem não sabia era quem tinha a obrigação profissional de saber.

O defesa foi utilizado contra a Tunísia.

A FIFA entrou em campo depois do apito final.

E a história acabou.

Derrota administrativa por 3-0.

Perda dos pontos.

Perda do primeiro lugar.

Adeus play-off.

Adeus Mundial.

Talvez o episódio mais doloroso seja precisamente porque nunca houve uma explicação verdadeiramente convincente.

Nunca ficou completamente esclarecido quem falhou.

Quem verificou.

Quem autorizou.

Quem assumiu a responsabilidade.

A culpa acabou diluída naquele oceano burocrático onde as responsabilidades públicas costumam afogar-se sem deixar sobreviventes.

E foi assim que Cabo Verde perdeu a maior oportunidade da sua história futebolística.

Não perdeu para a Tunísia.

Pelo contrário.

Tinha acabado de a derrotar no seu próprio estádio.

Não perdeu para uma selecção mais forte.

Não perdeu no relvado.

Foi eliminado na secretaria.

Por um erro administrativo tão básico que ainda hoje custa acreditar que tenha acontecido.

Por isso, quando Lúcio Antunes fala hoje em gerir expectativas, muitos cabo-verdianos talvez tenham legitimidade para responder com outra pergunta:

Depois de termos sobrevivido a 2013, porque razão haveríamos de ter medo de sonhar?

Afinal, o pior já aconteceu.

Fomos eliminados sem perder.

Fomos afastados depois de vencer.

Fomos castigados por um erro infantil que continua até hoje sem uma explicação capaz de convencer o país.

E mesmo assim o futebol cabo-verdiano levantou-se.

Continuou a crescer.

Foi aos CAN.

Voltou aos CAN.

Chegou finalmente ao Mundial.

Se existe uma lição nesta história, talvez seja exactamente a oposta daquela que Lúcio tenta transmitir.

Os cabo-verdianos não devem moderar os sonhos. Por que estamos a viver um sonho.

Devem aproveitá-los.

Porque o futebol vive precisamente disso.

Da possibilidade improvável.Da esperança irracional. Da felicidade temporária.

Se perdermos neste Mundial, perderemos provavelmente para equipas melhores. Perder com a Espanha em campo nunca será frustrante. Frustrante foi ganhar dois a zero em campo e perder 3 a 0 na secretaria.

Acontece.

Faz parte do jogo.

Mas perderemos no campo.

Com suor.

Com luta.

Com dignidade competitiva.

E isso faz toda a diferença.

Porque desta vez ninguém nos poderá tirar o sonho numa secretaria.

Ninguém nos poderá eliminar com um carimbo.

Ninguém nos poderá retirar o direito de acreditar por causa de uma suspensão mal interpretada.

Talvez por isso este não seja o momento para moderação.

Talvez seja precisamente o momento para sonhar sem limites.

Porque se há um povo que ganhou esse direito foi exactamente o povo que viu um Mundial escapar-lhe depois de derrotar a Tunísia em Tunes e descobrir, dias mais tarde, que o seu maior adversário não estava dentro das quatro linhas.

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