Francisco Carvalho já é Primeiro- ministro e vai  descobrir que há uma diferença enorme entre ganhar eleições e governar

4/06/2026 07:53 - Modificado em 4/06/2026 07:53

A campanha terminou, a polémica ficou para trás e começa finalmente o momento da verdade. Durante semanas, Cabo Verde discutiu tudo.

Discutiu a vitória do PAICV. Discutiu a derrota do MpD. Discutiu a hecatombe da UCID.

Discutiu sondagens.

Discutiu transições.

Discutiu investigações.

Discutiu até se Francisco Carvalho podia ou não ser indigitado Primeiro-Ministro.

Agora, pelo menos uma dessas discussões chegou ao fim.

O Presidente da República indigitou oficialmente Francisco Carvalho para formar Governo.

E com um simples acto constitucional, José Maria Neves encerrou uma polémica que nunca foi verdadeiramente jurídica. E ,mais do que isso adensa a  dúvida se está UCID,  sem Monteiro, deve ser levada a sério 

O acto do PR foi  sobretudo político

Ao fazê-lo, o Chefe de Estado lembrou o óbvio que muitos pareciam ter esquecido nos últimos dias: Cabo Verde continua a funcionar segundo a Constituição e não segundo as conferências de imprensa dos derrotados.

“Estamos aqui a cumprir rigorosamente a Constituição da República”, afirmou José Maria Neves.

E a verdade é que não havia muito mais para discutir.

O PAICV venceu as eleições.

Obteve maioria absoluta.

Francisco Carvalho liderou essa vitória.

E em qualquer democracia parlamentar minimamente funcional, a consequência lógica chama-se Governo.

Tudo o resto era ruído.

Mas se a indigitação encerra uma fase, abre outra muito mais difícil.

Porque a partir de hoje Francisco Carvalho deixa de ser apenas o homem que prometeu mudar Cabo Verde.

Passa a ser o homem que terá de o fazer.

E essa é uma profissão muito mais perigosa.

A boa notícia para o novo Primeiro-Ministro é que chega ao poder com uma legitimidade política rara.

Maioria absoluta.

Vitória clara.

Capital político elevado.

A má notícia é que chega exactamente com o mesmo pacote.

Porque as expectativas cresceram na mesma proporção da vitória.

E expectativas são como empréstimos políticos:

mais cedo ou mais tarde têm de ser pagas.

Francisco Carvalho revelou que o Governo já está formado.

Não disse quantos ministros terá.

Não revelou nomes.

Não abriu o embrulho.

Mas garantiu que teve em conta critérios como competência, patriotismo, dedicação e experiência.

Tudo palavras que ficam muito bem nas cerimónias de indigitação.

O problema começa quando os cabo-verdianos querem saber quem vai resolver os transportes.

Quem vai resolver a habitação.

Quem vai resolver o desemprego.

Quem vai resolver a energia.

Quem vai resolver o custo de vida.

Porque patriotismo é importante.

Mas normalmente não baixa o preço do arroz.

Também não passou despercebida a resposta ao presidente da UCID.

Francisco Carvalho não perdeu muito tempo com formalidades diplomáticas.

Disse que, depois de ouvir as críticas da UCID à sua indigitação, percebeu melhor as razões do fracasso eleitoral do partido.

Traduzindo para português político corrente:

a derrota da UCID não aconteceu nas urnas.

Começou muito antes na forma como o partido passou a olhar para a realidade política do país.

É uma leitura que provavelmente encontrará poucos contraditores depois dos resultados de 17 de Maio.

Mas talvez o momento mais interessante tenha vindo do próprio Presidente da República.

José Maria Neves aproveitou a polémica para dar uma pequena aula de literacia constitucional.

Recordou que o processo seguido agora é exactamente o mesmo que Cabo Verde utiliza desde a Constituição de 1992.

Aliás, lembrou que ele próprio foi indigitado Primeiro-Ministro antes da instalação do Parlamento quando venceu as eleições de 2001.

Ou seja, aquilo que alguns tentaram apresentar como uma inovação perigosa é, afinal, uma prática democrática com mais de três décadas.

Nada de revolucionário.

Nada de extraordinário.

Nada de escandaloso.

Apenas o funcionamento normal das instituições.

E talvez seja precisamente essa a melhor notícia de todo este processo.

Num momento em que tantas democracias vivem crises de legitimidade, contestação dos resultados eleitorais e guerras institucionais, Cabo Verde voltou a fazer aquilo que faz melhor desde 1991:

mudar de governo sem transformar a mudança numa crise nacional.

Agora resta a parte difícil.

Porque a democracia já fez o seu trabalho.

Os eleitores também.

As instituições igualmente.

A partir de hoje, a palavra passa para Francisco Carvalho.

E a política entra naquele território onde já não contam promessas, discursos ou programas eleitorais.

Contam resultados.

Porque há uma diferença enorme entre ganhar eleições e governar.

E é precisamente essa diferença que começa hoje.

Eduino Santos 

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