Mário Semedo acredita nos oitavos-de-final. E já anunciou a sua própria despedida

2/06/2026 08:31 - Modificado em 2/06/2026 08:31

O presidente da Federação quer fazer história no Mundial e fechar o ciclo no topo

Há dirigentes que passam anos a prometer o futuro.

E há dirigentes que, quando chegam ao topo, começam discretamente a preparar a saída.

A entrevista de Mário Semedo ao Expressodasilhas  tem precisamente esse duplo significado.

Por um lado, mostra um dirigente que acredita genuinamente que Cabo Verde pode ultrapassar a fase de grupos do Mundial.

Por outro, deixa uma mensagem quase de fim de ciclo quando anuncia que este será o seu último mandato à frente da Federação.

E talvez seja aí que reside o aspecto mais interessante da entrevista.

Porque Mário Semedo não fala como alguém preocupado com eleições federativas.

Fala como alguém preocupado com legado.

Quando questionado sobre os objectivos da selecção, foi claro:

Passar a primeira fase.

Nem mais.

Nem menos.

Sem promessas de grandeza exagerada. Sem discursos messiânicos. Sem vender aos cabo-verdianos a ideia de que a selecção vai conquistar o mundo.

Uma postura prudente.

Mas também inteligente.

Porque basta olhar para o grupo de Cabo Verde para perceber que a ambição dos oitavos-de-final já representa um objectivo extremamente exigente.

Ainda assim, há uma confiança visível.

Mário Semedo acredita que esta geração tem condições para competir.

E quando lhe perguntam se estamos perante a melhor geração de sempre, a resposta merece atenção.

Diz que sim.

Mas apenas em termos de resultados.

É uma resposta politicamente correcta, mas também historicamente justa.

Porque o futebol cabo-verdiano não começou com esta geração.

Antes de Ryan Mendes, Bebé, Stopira, Vozinha ou Dailon Rocha houve outros que abriram caminhos quando as condições eram muito mais difíceis.

A diferença é que esta geração encontrou uma estrutura mais preparada, mais visibilidade internacional e um contexto competitivo completamente diferente.

E soube aproveitar.

Talvez por isso o presidente fale tantas vezes em “crença” e “resiliência”.

Na verdade, está a falar da própria história recente do futebol cabo-verdiano.

Durante décadas, a selecção nacional era vista como participante.

Hoje é vista como candidata.

A mudança parece simples.

Mas é enorme.

E talvez seja esse o verdadeiro legado que Cabo Verde levará deste Mundial, independentemente dos resultados.

A normalização da ambição.

Já ninguém celebra apenas a presença.

Quer competir.

Quer ganhar.

Quer passar.

E isso representa uma revolução cultural no desporto cabo-verdiano.

Mas a frase mais importante da entrevista surge quase no fim.

Sem grande destaque.

Sem dramatismo.

Sem efeitos especiais.

“Este é o último mandato.”

Num país onde muitos dirigentes descobrem vocação eterna para os cargos que ocupam, a frase merece registo.

Porque diz uma coisa rara na vida pública cabo-verdiana:

o poder tem prazo.

Naturalmente, a política e o dirigismo desportivo ensinam prudência. Entre anunciar uma saída e concretizá-la existe sempre uma distância considerável.

Mas para já, a declaração fica registada.

E deixa uma questão interessante.

Se Cabo Verde conseguir fazer um grande Mundial, Mário Semedo sairá pela porta grande?

Ou o sucesso acabará por criar pressão para que fique mais algum tempo?

A resposta pertence ao futuro.

Para já, o presidente da Federação parece concentrado noutra missão.

Tentar levar Cabo Verde para os oitavos-de-final.

Porque se isso acontecer, a história do futebol cabo-verdiano voltará a dividir-se em duas partes:

antes do Mundial.

E depois do Mundial.

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