
A vitória de Cabo Verde sobre a Sérvia por 3-0 não foi apenas um resultado.
Foi uma mensagem.
Uma selecção estreante em Mundiais entrou em campo contra uma equipa europeia fisicamente forte, tacticamente organizada e habituada a outro tipo de palco internacional… e venceu sem discussão.
Três golos.
Zero sofridos.
E, sobretudo, a sensação de que os Tubarões Azuis já não entram em campo apenas para participar.
Entram para competir.
Grande parte das análises internacionais e dos meios que acompanharam a preparação para o Mundial destacaram precisamente isso: intensidade, velocidade de transição e uma equipa extremamente desconfortável para quem gosta de ter bola.
A Sérvia tentou jogar.
Cabo Verde tentou ferir.
E no futebol moderno isso faz muitas vezes a diferença.
Os Tubarões pressionaram bem a saída de bola, encurtaram espaços e mostraram uma característica que pode ser decisiva no Mundial: recuperação agressiva seguida de ataque vertical quase imediato.
Quando recupera a bola, Cabo Verde não perde muito tempo a filosofar.
Corre.
E corre com gente muito rápida.
Nas alas.
No apoio frontal.
E nas rupturas pelo corredor central.
Foi precisamente aí que a Sérvia começou a desorganizar-se.
Mas se a vitória deixou entusiasmo, também deixou avisos.
E talvez o principal aviso esteja exactamente onde muitos adeptos já colocaram o dedo: a lateral esquerda.
Sidney Cabral oferece profundidade ofensiva e coragem para atacar.
O problema é que, por vezes, ataca como se atrás dele não existisse metade do campo.
Durante vários momentos do jogo lançou-se muito alto, perdeu bolas em zonas perigosas e deixou espaços que uma equipa mais rápida tecnicamente poderia explorar de forma brutal.
O dado mais preocupante nem foi a subida.
Foi o isolamento.
Várias vezes Sidney ficou em situações de um contra um sem cobertura imediata.
Não apareceu o segundo homem.
Não apareceu a dobra defensiva.
Não apareceu o famoso dois contra um que normalmente protege laterais expostos.
Contra a Sérvia isso foi controlável.
Contra a Espanha pode transformar-se numa emergência nacional.
Porque do outro lado não estará apenas um extremo rápido.
Estará provavelmente Lamine Yamal.
E Yamal não costuma precisar de muitos convites.
A Espanha joga precisamente onde Cabo Verde mostrou alguma vulnerabilidade: exploração dos corredores, circulação rápida e criação constante de superioridade numérica.
Aliás, basta olhar para o jogo recente entre Espanha e Sérvia.
Os espanhóis venceram também por 3-0 e uma parte significativa da destruição ofensiva nasceu precisamente das combinações entre Yamal, médios interiores e movimentos rápidos pelos corredores.
Ou seja: a mesma Sérvia que sofreu com Cabo Verde sofreu igualmente com Espanha.
Mas de formas diferentes.
Cabo Verde castigou transições.
A Espanha castigou organização defensiva.
E isso talvez seja ainda mais perigoso.
Porque se existe uma coisa que a selecção espanhola faz melhor do que quase qualquer equipa do mundo é obrigar o adversário a defender durante muito tempo sem bola.
E aí surgem os erros.
As coberturas falhadas.
Os espaços entre linhas.
E os segundos de atraso que decidem jogos.
Ainda assim, existe uma razão para os cabo-verdianos acreditarem.
A Espanha continua favorita.
Claramente favorita.
Mas os Tubarões têm armas.
Velocidade.
Coragem.
Capacidade física.
E uma agressividade competitiva que pode incomodar qualquer selecção que entre em campo convencida de que vencerá apenas pela camisola.
Além disso, Cabo Verde parece emocionalmente leve.
E equipas estreantes muitas vezes tornam-se perigosas exactamente porque ainda não carregam o peso histórico dos fracassos.
No fundo, a vitória sobre a Sérvia mostrou duas coisas.
Primeiro: Cabo Verde não foi ao Mundial para tirar fotografias.
Segundo: Bubista terá agora de decidir se corrige rapidamente a vulnerabilidade da lateral esquerda ou se aceita viver perigosamente diante da ala mais explosiva do futebol mundial.
Porque uma coisa é deixar Zirkovic aparecer sozinho.
Outra completamente diferente é oferecer esse espaço a Lamine Yamal.
E em Mundiais, certos erros não costumam repetir-se duas vezes.
Porque normalmente o jogo acaba antes.
Eduino Santos