
Depois de estranhar o desaparecimento na Ribeira da Barca, agora são as autoridades brasileiras que dizem que as contas não batem certo
Quando a embarcação “Deus Seja Louvado” desapareceu da Ribeira da Barca, em Janeiro, houve quem atribuísse o caso aos caprichos do mar.
O Atlântico é grande. As correntes são poderosas.
E Cabo Verde conhece bem histórias improváveis vindas do oceano.
Mas mesmo entre pescadores habituados a respeitar os mistérios do mar, havia uma pergunta que nunca encontrou resposta convincente: Como é que um barco desaparece simplesmente de um fundeadouro e reaparece quatro meses depois no Brasil?
Agora, a estranheza já não é apenas cabo-verdiana.
As autoridades brasileiras que encontraram a embarcação começaram também a fazer perguntas. E, ao contrário dos comentadores das redes sociais, têm um detalhe importante: estão no terreno, viram o barco e começaram a somar factos.
E quanto mais somam, menos as contas parecem bater certo.
O secretário de Pesca de Bragança, Brasil, João Farias, responsável pela guarda da embarcação, não escondeu a perplexidade ao descrever o estado em que o barco foi encontrado.
Segundo explicou à Inforpress, o interior da embarcação encontrava-se limpo, organizado e com material preservado. Demasiado preservado. Para quem acabou de atravessar milhares de quilómetros de Atlântico durante quatro meses.
“É como se ela estivesse sendo usada”, afirmou o responsável brasileiro.
Uma frase simples.
Mas politicamente explosiva para toda a narrativa construída até agora.
Porque o cenário encontrado em Bragança não corresponde exactamente à imagem de uma embarcação abandonada à sua sorte, entregue ao vento, às correntes, às tempestades e ao acaso do oceano.
Pelo contrário.
As autoridades brasileiras dizem não conseguir ligar as informações recebidas de Cabo Verde ao estado real do barco.
Em linguagem menos diplomática: a história conhecida até agora tem demasiadas peças que não encaixam.
Enquanto isso, as autoridades brasileiras começaram a fazer outra coisa muito menos romântica do que especular sobre mistérios marítimos.
Começaram a fazer contas.
E aqui entra um novo capítulo da história.
Bragança está a pagar vigilância permanente, 24 horas por dia, para evitar novos furtos e proteger a embarcação.
O mar continua a movimentar o barco. As marés representam riscos. E a estrutura local não foi preparada para acolher indefinidamente uma embarcação estrangeira aparecida do nada.
Por isso, João Farias já deixou um aviso diplomático mas claro: a factura está a crescer.
Os custos ainda não foram divulgados. Mas serão apresentados. E alguém terá de os pagar.
A situação já foi comunicada à Embaixada de Cabo Verde no Brasil e está a ser acompanhada pelas autoridades dos dois países.
Mas o essencial continua sem resposta.
O cabo apareceu cortado. O barco desapareceu. Atravessou o Atlântico. Chegou praticamente intacto.
E foi encontrado num estado que leva as autoridades brasileiras a concluir que alguma coisa nesta história continua por explicar.
No fundo, o caso da embarcação “Deus Seja Louvado” entrou numa fase curiosa.
No início parecia apenas um desaparecimento. Hoje começa a parecer um mistério.
E quanto mais informações surgem, mais cresce a sensação de que o Atlântico talvez não seja a parte mais difícil de explicar nesta história.
NN