
Entre José Maria Neves e Ulisses Correia e Silva, o Estado cresceu. A questão é: cresceu onde?
Em Cabo Verde há uma tradição política fascinante: todos os partidos descobrem subitamente o peso do Estado exactamente quando passam para a oposição.
Enquanto governam, chamam-lhe modernização institucional.
Quando perdem eleições, passa imediatamente a ser “gordura administrativa”.
Agora, depois da vitória do PAICV, começa a surgir a promessa clássica dos novos ciclos políticos:
reduzir custos do Governo, emagrecer estruturas, extinguir organismos e tornar a Administração Pública “mais leve”.
A frase parece sempre excelente em campanha.
O problema começa quando chega a realidade.
Porque a pergunta essencial é simples:
afinal, qual dos dois ciclos governativos custou mais ao erário público — os governos de José Maria Neves ou os de Ulisses Correia e Silva?
A resposta curta é politicamente desconfortável:
depende do que se mede.
O Estado cresceu nos dois ciclos
A ideia de que apenas um dos governos “engordou” o Estado não resiste totalmente aos factos.
Durante os anos de José Maria Neves:
* houve forte expansão institucional;
* crescimento da administração indirecta;
* criação de institutos e agências;
* aumento significativo da despesa pública;
* e expansão do emprego público, sobretudo em sectores sociais e infraestruturas.
Foi o período da construção do Estado moderno cabo-verdiano pós-abertura económica:
universidades, hospitais, estradas, regulação, descentralização administrativa e reforço institucional.
O Estado cresceu muito.
Mas cresceu num país ainda em forte fase de estruturação.
O paradoxo do MpD
Quando o MpD chegou ao poder em 2016, o discurso era precisamente o da racionalização:
menos Estado,
mais eficiência,
menos organismos,
mais gestão moderna.
Só que a prática acabou por produzir outro fenómeno:
o Estado não emagreceu realmente.
Mudou de formato.
Durante os governos de Ulisses:
* multiplicaram-se institutos;
* fundações;
* agências;
* mecanismos regulatórios;
* estruturas autónomas;
* e reorganizações governamentais sucessivas.
Em 2025, por exemplo, o Governo contava com:
* Primeiro-Ministro;
* Vice-Primeiro-Ministro;
* 15 ministros;
* e 5 secretários de Estado.
Ou seja:
o discurso liberal conviveu confortavelmente com uma máquina pública bastante extensa.
Então quem gastou mais?
Em termos absolutos, os governos de Ulisses provavelmente movimentaram orçamentos públicos maiores.
Mas existe uma nuance importante:
Cabo Verde de 2026 não é o Cabo Verde de 2001;
* a economia cresceu;
* o PIB aumentou;
* a inflação mudou escalas;
* e o Estado assumiu novas responsabilidades.
Comparações puramente nominais seriam intelectualmente desonestas.
O que parece mais correcto afirmar é isto:
José Maria Neves expandiu o Estado.
Ulisses Correia e Silva consolidou e sofisticou essa expansão.
Ou seja:
o MpD criticou durante anos o “Estado pesado”… enquanto governava um Estado que continuou a crescer.
Talvez com linguagem mais tecnocrática.
Talvez com melhor comunicação financeira.
Mas continuou a crescer.
O detalhe que quase ninguém diz
Existe ainda um dado politicamente incômodo:
muitos institutos e organismos públicos criados ao longo dos anos sobreviveram porque servem interesses transversais do sistema político.
Governos mudam.
Estruturas ficam.
E é precisamente por isso que quase todas as promessas de “redução do peso do Estado” acabam parcialmente engolidas pela realidade.
Porque extinguir organismos significa:
cortar lugares;
reduzir influência;
eliminar nomeações;
diminuir espaços de acomodação política;
e enfrentar resistências internas gigantescas.
Na teoria, todos querem um Estado leve.
Na prática, quase ninguém quer perder espaço dentro dele.
Francisco Carvalho conseguirá fazer diferente?
O novo poder promete um Governo mais curto e uma Administração Pública mais racional.
Politicamente, o discurso faz sentido.
Sobretudo depois de uma campanha onde o PAICV acusou o MpD de excesso de estruturas, institutos e organismos públicos.
Mas a História cabo-verdiana recomenda prudência.
Porque todos os governos entram prometendo emagrecer o Estado.
O problema é que o Estado cabo-verdiano funciona muitas vezes como aquelas malas de viagem feitas à pressa:
quanto mais se tenta organizar, mais coisas aparecem lá dentro. É só perguntar aos dois últimos primeiros-ministros
E talvez exista aqui a maior ironia de todas.
Ao longo de 25 anos, tanto PAICV como MpD passaram metade do tempo a criticar o tamanho do Estado criado pelo adversário… enquanto acrescentavam discretamente novas camadas ao mesmo edifício administrativo.
No fundo, a alternância política cabo-verdiana produziu muitas mudanças de discurso.
Mas o Estado continuou quase sempre a aumentar.
Francisco Carvalho tem o benefício da dúvida na impossibilidade de saber o imaginam José Maria Neves e Ulisses Correia e Silva quando ouvem falar de ” cortar gorduras” do …Estado
NN