Ainda existe em muitos sectores políticos a ideia silenciosa de que os cargos pertencem mais às pessoas do que às instituições. E é precisamente essa mentalidade que produz os espectáculos típicos das transições: corridas administrativas, ocupação acelerada de espaços, ansiedade burocrática e aquela sensação permanente de que cada alternância política ameaça desmontar o próprio Estado.
Como se o país estivesse condenado a recomeçar institucionalmente a cada ciclo eleitoral.
Por: Eduíno Santos

Há qualquer coisa de profundamente reveladora no comportamento dos poderes em transição. De repente, surgem urgências administrativas inesperadas.
As gavetas do poder ganham importância estratégica. Os concursos aceleram.
As nomeações aparecem. E certos gabinetes começam a movimentar-se com a velocidade de quem descobriu que o tempo político afinal tem prazo de validade.
Cabo Verde entrou novamente nesse momento. O momento do alvoroço.
Uns arrumam dossiers à pressa. Outros tem pressa de chegar aos dossiers.
Outros tentam chegar rápido às gavetas que ainda estão a ser arrumadas.
E o país observa mais uma vez aquele velho problema da nossa cultura política: o excessivo foco nos cargos… e a insuficiente confiança nas instituições.
E a frase “ confiança nas intuições” me fez regressar a uma entrevista que fiz em Novembro de 1987 a Aristides Pereira. Há´…39 anos
Na altura, Cabo Verde ainda vivia sob o regime de partido único. E quando pressionei sobre a sua sucessão , Aristides respondeu com uma serenidade política que hoje quase parece desconcertante:
“Eu não sei porquê tanto burburinho à volta da questão da sucessão. Quando se fala em sucessão fala-se do Presidente, não é certo? Mas porquê tanta importância? Temos que mudar essa mentalidade. O que nós estamos a fazer é criar instituições. No nosso regime qualquer pessoa pode ser substituída a qualquer hora. Temos um Estado com instituições que garantem as mudanças.”
O mais impressionante nesta declaração talvez nem seja o conteúdo. É o facto de a História lhe ter dado razão.
Três anos depois, em Fevereiro de 1990, Aristides Pereira abandona o cargo de secretário-geral do PAICV para concorrer às primeiras eleições presidenciais multipartidárias da história do país.
E perde.
Perde eleições num momento decisivo da construção democrática cabo-verdiana. Mas perde dentro de um Estado funcional, institucionalmente estabilizado e sem transformar a alternância política numa crise nacional.
Sai com serenidade. Sem dramatizar o país.
Sem transformar instituições em propriedade emocional do poder cessante.
Hoje, olhando para o ambiente político instalado após as legislativas de 17 de Maio, percebe-se como aquelas palavras continuam desconfortavelmente actuais.
Porque o problema da democracia cabo-verdiana talvez nunca tenha sido apenas ganhar ou perder eleições. O problema continua a ser a forma como lidamos psicologicamente com o poder.
Ainda existe em muitos sectores políticos a ideia silenciosa de que os cargos pertencem mais às pessoas do que às instituições. E é precisamente essa mentalidade que produz os espectáculos típicos das transições: corridas administrativas, ocupação acelerada de espaços, ansiedade burocrática e aquela sensação permanente de que cada alternância política ameaça desmontar o próprio Estado.
Como se o país estivesse condenado a recomeçar institucionalmente a cada ciclo eleitoral.
Aristides Pereira percebeu cedo um detalhe essencial: democracias sólidas não podem depender da permanência dos homens. Dependem da força das instituições quando os homens saem.
E talvez esteja aí a grande ironia histórica.
Muitas vezes, sectores inteiros da política cabo-verdiana gostam de apresentar a geração da independência apenas através dos seus defeitos, erros e limitações — muitos deles reais e debatíveis. Mas foi precisamente essa geração que, no momento mais delicado da transição democrática, deixou uma das maiores lições institucionais do país: O Estado deve sobreviver tranquilamente à saída dos seus dirigentes.
Hoje, porém, basta observar o nervosismo instalado em certos sectores para perceber que essa cultura institucional ainda continua incompleta.
Há demasiado apego às cadeiras .Demasiada ansiedade pelas gavetas do poder
Demasiado medo da perda de influência. Como se governar fosse uma extensão da identidade pessoal.
Talvez por isso a velha frase de Aristides Pereira continue a soar quase como aviso político para 2026:
“Temos que mudar essa mentalidade. O que nós estamos a fazer é criar instituições.”
Trinta e nove anos depois, o problema talvez seja precisamente este:
continuamos demasiado apaixonados pelos cargos… e ainda insuficientemente comprometidos com as instituições.