No apagar das luzes, o PAICV acusa o Governo de tentar deixar o Estado “ocupado”

25/05/2026 23:38 - Modificado em 25/05/2026 23:41

Entre viaturas novas, reclassificações e concursos acelerados, começa a velha guerra da transição

Os governos em fim de ciclo têm normalmente duas opções:
arrumar as gavetas… ou tentar deixar a casa ocupada até ao último minuto.

O PAICV acredita que o Governo cessante de Ulisses Correia e Silva escolheu claramente a segunda hipótese.

E a poucos dias da mudança de poder, o ambiente político começa lentamente a entrar naquela fase delicada onde a democracia cabo-verdiana costuma ser posta à prova:
a transição.

O secretário-geral do PAICV, Vladmir Silves Ferreira, acusou este fim-de-semana o executivo cessante de aproveitar os últimos dias no poder para “ocupar o Estado”, acelerar gastos públicos e criar dificuldades ao futuro Governo liderado por Francisco Carvalho.

Traduzido da linguagem partidária para português político corrente:
o PAICV suspeita que começou a clássica corrida contra o relógio do “ainda dá tempo”.

Segundo o partido, há movimentações consideradas preocupantes em empresas públicas como a EDEC, os Correios de Cabo Verde e a Estradas de Cabo Verde.

O caso mais simbólico envolve a EDEC.

Três dias depois das eleições legislativas, a empresa lançou concurso para aquisição de 30 novas viaturas. O PAICV questiona as prioridades, argumentando que o país enfrenta problemas graves de fornecimento de energia, sobretudo na Praia, e que talvez geradores fossem mais urgentes do que carros novos.

E aqui começa a parte politicamente interessante.

Porque em Cabo Verde quase todos os partidos descobrem subitamente o problema das despesas públicas… exactamente no momento em que passam para a oposição.

Enquanto governam, chamam-lhe gestão.
Quando perdem eleições, passa imediatamente a chamar-se “ocupação do Estado”.

Ainda assim, o contexto desta transição é diferente.

O MpD perdeu o poder após uma década de governação. E governos longos deixam sempre marcas profundas na administração pública, nas empresas estatais e nos mecanismos de influência institucional.

É precisamente isso que o PAICV parece querer travar antes da tomada de posse.

O partido denuncia alegadas acelerações de processos de reclassificação, integração nos quadros e regularização de funcionários com vínculos precários ligados ao poder cessante. Tudo isto num momento em que o executivo de Ulisses já está politicamente derrotado mas administrativamente ainda governa.

E talvez seja exactamente aí que reside o problema mais sensível.

Em democracia, perder eleições significa perder legitimidade política para decisões estruturalmente pesadas — mesmo quando a legalidade formal ainda existe.

O PAICV insiste precisamente nessa distinção:
talvez certas decisões ainda sejam legais, mas já não parecem politicamente morais.

A acusação é forte porque toca num dos temas mais delicados da democracia cabo-verdiana: a relação entre Estado e partido.

Durante anos, Cabo Verde orgulhou-se de construir transições políticas relativamente civilizadas num continente onde mudanças de poder frequentemente terminam em perseguições, caos institucional ou guerras administrativas silenciosas.

E é curioso notar que grande parte dessa estabilidade nacional nasceu precisamente da forma como os derrotados aceitaram sair.

Talvez até mais do que da forma como os vencedores celebraram vitórias.

Por isso, as próximas semanas serão observadas com enorme atenção.

Até agora, o Governo ainda não apresentou uma resposta política musculada às acusações do PAICV, limitando-se sectores próximos do MpD a rejeitar suspeitas e acusar a oposição de alimentar narrativas de desconfiança sobre o funcionamento das instituições.

Mas o ambiente já mudou.

Porque o país entrou oficialmente naquele momento raro em que o poder muda de mãos e todos começam subitamente a descobrir a dimensão real das gavetas do Estado.

E em política cabo-verdiana existe uma regra antiga:
quanto mais rápida se torna a movimentação administrativa no fim dos mandatos, maior costuma ser o medo de perder espaço no início do ciclo seguinte

NN

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