A confiança do consumidor sobe. O problema é encontrar os consumidores confiantes

25/05/2026 23:34 - Modificado em 25/05/2026 23:34

Entre os números do INE e a vida real existe um país inteiro pelo meio

No fundo, talvez o consumidor cabo-verdiano continue a fazer aquilo que sempre fez:
resistir.Mesmo quando os preços sobem.Mesmo quando poupar virou luxo.Mesmo quando comprar casa começa a parecer ficção imobiliária.

E talvez seja precisamente isso que os relatórios estatísticos têm dificuldade em medir:
em Cabo Verde, muitas vezes o otimismo não significa confiança verdadeira.

Significa apenas que as pessoas aprenderam a continuar apesar de tudo.

Por: Eduíno Santos

Imagem meramente ilustrativa

O Instituto Nacional de Estatística garante que a confiança do consumidor cabo-verdiano voltou a aumentar.

Os indicadores evoluem positivamente.
As tendências são ascendentes.
E os relatórios mantêm aquele optimismo estatístico elegante que normalmente faz muito sucesso em conferências, apresentações em PowerPoint e discursos governativos.

O problema é que depois desligamos a televisão, saímos para a rua, abrimos a carteira… e começamos a suspeitar que talvez exista um pequeno desencontro entre os indicadores e a vida.

Porque há uma pergunta que muitos cabo-verdianos provavelmente fazem em silêncio quando ouvem falar no “aumento da confiança do consumidor”:

exactamente onde estão esses consumidores tão confiantes?

Sobretudo num mundo onde basta abrir um telejornal para assistir diariamente a uma espécie de festival internacional de instabilidade:
guerras, inflação global, crises energéticas, desaceleração económica, conflitos comerciais, juros altos e um ambiente internacional que parece produzido por argumentistas pessimistas.

E mesmo dentro de Cabo Verde os próprios números do INE acabam por produzir uma ironia estatística quase perfeita.

Segundo os dados divulgados, as famílias consideram que:

  • a situação económica do lar piorou;
  • a situação económica do país piorou;
  • quase ninguém consegue poupar;
  • a esmagadora maioria não pensa comprar carro;
  • e o desejo de comprar ou construir casa caiu brutalmente.

Mas, ainda assim, a confiança sobe.

É aqui que os números começam a entrar naquele território fascinante onde a estatística e a psicologia nacional quase parecem discutir entre si.

Porque 98,9% dos inquiridos afirmam que a actual situação económica não permite poupar dinheiro.

Noventa e oito vírgula nove por cento.

Em linguagem menos técnica isso significa praticamente o país inteiro.

Ao mesmo tempo, apenas 1,1% acredita conseguir poupar algum dinheiro. Um número tão pequeno que já começa a parecer grupo VIP económico.

E talvez esteja precisamente aí o retrato mais honesto do actual momento cabo-verdiano:
as pessoas podem até acreditar que o país vai melhorar… mas continuam sem sentir segurança suficiente para melhorar a própria vida.

O cidadão olha para a economia nacional como quem olha para um projecto turístico ao longe:
parece bonito na fotografia, mas não tem certeza se conseguirá pagar entrada.

Os números ligados ao consumo ajudam ainda mais a desmontar o optimismo excessivamente festivo.

Cerca de 95 em cada 100 cabo-verdianos afirmam não ter qualquer intenção de comprar carro nos próximos dois anos.

E aqui há um detalhe quase cruel:
num país onde o transporte público frequentemente transforma deslocações simples em exercícios de resistência emocional, nem assim as famílias se sentem capazes de pensar em comprar viatura própria.

Quanto ao sonho da casa própria, a realidade é ainda mais dura.

Apenas 2,7% admitem possibilidade de construir ou comprar casa nos próximos dois anos. No ano anterior eram 18,2%.

Ou seja, o optimismo estatístico sobe exactamente no momento em que os grandes sonhos económicos das famílias começam a descer.

É uma espécie de confiança defensiva:
as pessoas talvez já não acreditem no desastre iminente… mas também não parecem acreditar suficientemente no futuro para assumir grandes compromissos financeiros.

E talvez isso explique o paradoxo.

A confiança do consumidor em Cabo Verde não parece ser uma confiança de prosperidade.
Parece mais uma confiança de sobrevivência.

Uma confiança construída não porque a vida esteja fácil, mas porque os cabo-verdianos desenvolveram uma impressionante capacidade histórica de adaptação à dificuldade.

No fundo, talvez o consumidor cabo-verdiano continue a fazer aquilo que sempre fez:
resistir.

Mesmo quando os preços sobem.
Mesmo quando poupar virou luxo.
Mesmo quando comprar casa começa a parecer ficção imobiliária.

E talvez seja precisamente isso que os relatórios estatísticos têm dificuldade em medir:
em Cabo Verde, muitas vezes o optimismo não significa confiança verdadeira.

Significa apenas que as pessoas aprenderam a continuar apesar de tudo.

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