No fundo, talvez o consumidor cabo-verdiano continue a fazer aquilo que sempre fez:
resistir.Mesmo quando os preços sobem.Mesmo quando poupar virou luxo.Mesmo quando comprar casa começa a parecer ficção imobiliária.
E talvez seja precisamente isso que os relatórios estatísticos têm dificuldade em medir:
em Cabo Verde, muitas vezes o otimismo não significa confiança verdadeira.
Significa apenas que as pessoas aprenderam a continuar apesar de tudo.
Por: Eduíno Santos

O Instituto Nacional de Estatística garante que a confiança do consumidor cabo-verdiano voltou a aumentar.
Os indicadores evoluem positivamente.
As tendências são ascendentes.
E os relatórios mantêm aquele optimismo estatístico elegante que normalmente faz muito sucesso em conferências, apresentações em PowerPoint e discursos governativos.
O problema é que depois desligamos a televisão, saímos para a rua, abrimos a carteira… e começamos a suspeitar que talvez exista um pequeno desencontro entre os indicadores e a vida.
Porque há uma pergunta que muitos cabo-verdianos provavelmente fazem em silêncio quando ouvem falar no “aumento da confiança do consumidor”:
exactamente onde estão esses consumidores tão confiantes?
Sobretudo num mundo onde basta abrir um telejornal para assistir diariamente a uma espécie de festival internacional de instabilidade:
guerras, inflação global, crises energéticas, desaceleração económica, conflitos comerciais, juros altos e um ambiente internacional que parece produzido por argumentistas pessimistas.
E mesmo dentro de Cabo Verde os próprios números do INE acabam por produzir uma ironia estatística quase perfeita.
Segundo os dados divulgados, as famílias consideram que:
Mas, ainda assim, a confiança sobe.
É aqui que os números começam a entrar naquele território fascinante onde a estatística e a psicologia nacional quase parecem discutir entre si.
Porque 98,9% dos inquiridos afirmam que a actual situação económica não permite poupar dinheiro.
Noventa e oito vírgula nove por cento.
Em linguagem menos técnica isso significa praticamente o país inteiro.
Ao mesmo tempo, apenas 1,1% acredita conseguir poupar algum dinheiro. Um número tão pequeno que já começa a parecer grupo VIP económico.
E talvez esteja precisamente aí o retrato mais honesto do actual momento cabo-verdiano:
as pessoas podem até acreditar que o país vai melhorar… mas continuam sem sentir segurança suficiente para melhorar a própria vida.
O cidadão olha para a economia nacional como quem olha para um projecto turístico ao longe:
parece bonito na fotografia, mas não tem certeza se conseguirá pagar entrada.
Os números ligados ao consumo ajudam ainda mais a desmontar o optimismo excessivamente festivo.
Cerca de 95 em cada 100 cabo-verdianos afirmam não ter qualquer intenção de comprar carro nos próximos dois anos.
E aqui há um detalhe quase cruel:
num país onde o transporte público frequentemente transforma deslocações simples em exercícios de resistência emocional, nem assim as famílias se sentem capazes de pensar em comprar viatura própria.
Quanto ao sonho da casa própria, a realidade é ainda mais dura.
Apenas 2,7% admitem possibilidade de construir ou comprar casa nos próximos dois anos. No ano anterior eram 18,2%.
Ou seja, o optimismo estatístico sobe exactamente no momento em que os grandes sonhos económicos das famílias começam a descer.
É uma espécie de confiança defensiva:
as pessoas talvez já não acreditem no desastre iminente… mas também não parecem acreditar suficientemente no futuro para assumir grandes compromissos financeiros.
E talvez isso explique o paradoxo.
A confiança do consumidor em Cabo Verde não parece ser uma confiança de prosperidade.
Parece mais uma confiança de sobrevivência.
Uma confiança construída não porque a vida esteja fácil, mas porque os cabo-verdianos desenvolveram uma impressionante capacidade histórica de adaptação à dificuldade.
No fundo, talvez o consumidor cabo-verdiano continue a fazer aquilo que sempre fez:
resistir.
Mesmo quando os preços sobem.
Mesmo quando poupar virou luxo.
Mesmo quando comprar casa começa a parecer ficção imobiliária.
E talvez seja precisamente isso que os relatórios estatísticos têm dificuldade em medir:
em Cabo Verde, muitas vezes o optimismo não significa confiança verdadeira.
Significa apenas que as pessoas aprenderam a continuar apesar de tudo.