No fundo, talvez seja precisamente aí que reside o maior problema da UCID atual: continua a explicar o país em vez de o ouvir. E partidos que deixam de ouvir o país acabam quase sempre a falar sozinhos.

Por . Eduino Santos
Pode-se perder eleições de várias maneiras. Há derrotas que deixam partidos feridos mas vivos. E há derrotas que obrigam um partido a olhar para os resultados como quem olha para exames médicos depois de anos a ignorar sintomas. A UCID pertence claramente à segunda categoria.
Porque se é verdade que Ulisses Correia e Silva foi o principal derrotado político destas legislativas, também é verdade que houve quem perdesse muito mais.
E ninguém perdeu mais do que a UCID.
O MpD perdeu o poder, mas manteve dimensão eleitoral, capacidade competitiva e presença nacional. Sofreu uma derrota dura, emocionalmente pesada, mas saiu das urnas ainda reconhecível como grande partido de governo.
A UCID saiu das urnas parecendo um partido que entrou em velocidade excessiva numa curva que toda a gente já tinha visto.
Perdeu metade dos deputados. Perdeu influência em São Vicente. Perdeu centralidade política. E, mais preocupante ainda, perdeu a ilusão de crescimento. Passou a ser a UCID antes de António Monteiro, antigo presidente e deputado não eleito, o ter tornado um partido sério
Hoje, o discurso já não parece ser “como chegar ao poder em São Vicente e acabar com bipartidarismos ”. Parece mais “como evitar irrelevância”.
E tudo começou, outra vez, na incapacidade de ler os sinais das autárquicas de 2024.
Em São Vicente, a UCID recebeu o aviso mais claro possível: o PAICV ultrapassava o partido como segunda força política da ilha. Em qualquer sistema político minimamente racional isso teria provocado reflexão estratégica, revisão interna e talvez até alguma humildade eleitoral.
Mas a política cabo-verdiana tem esta particularidade fascinante: há partidos que tratam derrotas como simples erros estatísticos temporários.
A UCID preferiu acreditar que 2024 tinha sido um acidente.
Não era.
Era tendência.
E as legislativas apenas confirmaram aquilo que São Vicente já tinha começado a dizer: o partido estava a perder o monopólio emocional do eleitorado mindelense.
Ainda assim, nada conseguiu competir com o espectáculo proporcionado pelas candidaturas em Santiago Sul e no Fogo.
Aí, a política abandonou temporariamente o terreno da estratégia e entrou directamente no género da comédia eleitoral no estilo da velha UCID do inicio da década de 90.
O eleitorado assistiu, entre perplexidade e entretenimento involuntário, à importação de “reforços” de última hora vindos de dissidentes do MpD, apresentados quase como contratações galácticas capazes de levar a UCID à conquista épica de “três deputados na Praia e um no Fogo”.
Faltou apenas a música dramática e os efeitos especiais.
A realidade, porém, tem um sentido de humor particularmente cruel. Santiago Sul: 806 votos. Fogo: 179.
Números tão politicamente devastadores que transformam qualquer conferência de imprensa posterior num exercício de resistência psicológica.
E assim a UCID sofreu provavelmente a pior derrota da sua história exactamente no momento em que acreditava aproximar-se da maior vitória estratégica da sua existência.
Porque a ironia desta eleição é quase cinematográfica.
Se apenas 10% dos votantes do círculo das Américas tivessem ficado em casa, os dois deputados distribuíam-se entre MpD e PAICV, retirando a maioria absoluta aos vencedores e colocando a UCID no centro do poder parlamentar cabo-verdiano.
O partido podia ter saído destas eleições como fiel da balança nacional.
Podia transformar a pior noite eleitoral numa vitória táctica histórica.
Podia voltar ao velho sonho da centralidade.
Mas a bola bateu na trave no último minuto do prolongamento.
E o futebol político raramente recompensa quem vive apenas de “quase”.
“So sorry”, dirão os eleitores das Américas.
“Graças a Deus”, responderão muitos apoiantes do PAICV — e não só.
Porque, no fundo, grande parte do sistema político cabo-verdiano parecia já cansado da eterna narrativa da UCID como partido-charneira permanente de São Vicente.
E talvez tenha sido isso que tornou ainda mais infeliz a reacção final do presidente da UCID.
Enquanto Ulisses Correia e Silva assumia a derrota com sentido institucional — naquela tradição cabo-verdiana onde a democracia se consolidou muito mais pela forma civilizada como os derrotados aceitaram perder do que pelos discursos triunfais dos vencedores — a liderança da UCID decidiu procurar um vencedor alternativo.
“A abstenção venceu as eleições”, disse o presidente do partido.
É uma frase politicamente cómoda.Também profundamente injusta.
Porque ao tentar transformar a abstenção no verdadeiro vencedor da noite, acaba por retirar mérito à vitória política de Francisco Carvalho e do PAICV.
Como se milhões de cabo-verdianos não tivessem feito uma escolha clara.
Como se os resultados fossem um acidente atmosférico.
Como se a derrota da UCID tivesse sido causada por eleitores ausentes e não por erros próprios acumulados ao longo dos anos.
No fundo, talvez seja precisamente aí que reside o maior problema da UCID actual: continua a explicar o país em vez de o ouvir.
E partidos que deixam de ouvir o país acabam quase sempre a falar sozinhos.