PAICV regressa ao poder com maioria absoluta e Cabo Verde evita cenário de dependência parlamentar da UCID

18/05/2026 21:34 - Modificado em 18/05/2026 21:34

O resultado final das eleições legislativas de 2026 confirmou o regresso do PAICV ao poder com maioria absoluta, ao eleger 37 deputados, contra 33 do MpD e apenas 2 da UCID.

Mais do que uma simples alternância governativa, o resultado foi recebido por vários sectores da sociedade civil — incluindo alguns próximos do MpD — com um sentimento de alívio político e institucional. A principal razão prende-se com o facto de o país ter evitado um cenário de maioria relativa dependente da UCID para formar governo

Importa, contudo, fazer uma distinção essencial: ao contrário do que muitas vezes se tenta construir no debate político, a UCID nunca teve verdadeira centralidade no plano nacional. . E os 898 votos que teve ontem em Santiago Sul , com reforços do MpD , de ultima hora ,é prova disso

Desde a abertura democrática em 1991, Cabo Verde viveu quase sempre sob governos sustentados por maiorias absolutas ou qualificadas, primeiro do MpD e depois do PAICV. O sistema político cabo-verdiano consolidou-se precisamente na lógica de alternância entre os dois grandes partidos, sem necessidade de entendimentos parlamentares estruturais com terceiros.

A “centralidade” da UCID foi sobretudo municipal e mindelense

O papel da UCID como partido-charneira resume-se essencialmente à realidade política de São Vicente, sobretudo no contexto municipal.

Foi aí que o partido construiu a imagem de árbitro político, muitas vezes determinando quem governava a Câmara Municipal de São Vicente.

Em 2008, a UCID viabilizou a gestão do MpD na CMSV, numa solução que muitos eleitores interpretaram como contrária ao sentido do voto popular expresso nas urnas.

Mais tarde, em 2020, voltou a assumir posição decisiva ao aproximar-se do PAICV, contribuindo para inviabilizar a governação municipal do MpD em São Vicente durante cinco anos.

Também nas eleições presidenciais, a postura da UCID alimentou a percepção de oscilação estratégica, apoiando em determinados momentos candidatos próximos do PAICV e, noutras ocasiões, figuras alinhadas com o MpD.

É precisamente esse histórico que gera reservas em vários sectores da sociedade civil quanto à possibilidade de a UCID assumir um papel determinante na governação nacional.

“Se fosse árbitro, já teria perdido o apito”

Em círculos políticos e institucionais de São Vicente tornou-se recorrente uma leitura particularmente crítica da actuação da UCID: a de que o partido exerce um papel de árbitro excessivamente inclinado para conveniências conjunturais.

A metáfora utilizada por alguns actores políticos é particularmente dura, mas reveladora do sentimento existente: “se fosse árbitro, já teria perdido as insígnias e o apito devido às arbitragens tendenciosas feitas em São Vicente”.

Independentemente do exagero da formulação, ela traduz um dado político real: uma parte significativa do eleitorado desconfia da previsibilidade e da coerência estratégica da UCID quando colocada em posição decisiva. E a sangria eleitoral que vem sofrendo desde 2024 prova isso

Daí que muitos sectores — inclusive não alinhados com o PAICV — prefiram uma maioria absoluta clara a um cenário de dependência parlamentar da UCID.

Francisco Carvalho ganha força — e responsabilidade total

A vitória do PAICV dá a Francisco Carvalho condições políticas plenas para governar sem depender de alianças parlamentares.

Isso significa que o novo executivo terá margem para executar o seu programa sem bloqueios externos, mas também sem desculpas.

A partir de agora:

os sucessos serão atribuídos ao PAICV;
os fracassos também;
e o eleitorado poderá avaliar diretamente a capacidade do novo governo.
É precisamente essa clareza institucional que muitos sectores económicos e sociais valorizam.

Num país vulnerável a choques externos, dependente de estabilidade e confiança, uma maioria absoluta é vista por muitos como preferível a soluções assentes em negociações parlamentares permanentes.

O MpD perde o governo, mas mantém peso nacional

Apesar da derrota, o MpD continua longe de um cenário de colapso político.

Os 33 deputados demonstram que o partido mantém implantação nacional sólida e uma base eleitoral robusta. Ainda assim, os resultados mostram desgaste acumulado após anos de governação, sobretudo em temas como custo de vida, transportes, habitação e desigualdades sociais.

O eleitorado decidiu mudar, mas não destruiu o principal partido da oposição.

O regresso ao modelo clássico cabo-verdiano

No essencial, estas eleições representam a continuação do modelo político clássico de Cabo Verde: alternância clara entre MpD e PAICV, sem dependência estrutural de terceiros partidos.

O país evitou um Parlamento fragmentado, evitou negociações permanentes de sobrevivência política e entregou ao vencedor condições estáveis de governação.

Agora começa a fase mais difícil para Francisco Carvalho: transformar capital político, popularidade e esperança eleitoral em governação efectiva.

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